Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

31
Jan18

O meu filho é melhor que o teu

IMG_20171004_134257 (2).jpg

E pronto, eis-me aqui hoje, de coração aberto, para falar daquela que não consegue deixar de ser uma das maiores parvoíces da maternidade. Falo, obviamente, da competição entre mães. É que ainda os putos estão amagadinhos no útero e já as mães andam a comparar percentis e número de pontapés. Com um bocadinho de sorte até o tamanho das barrigas é comparado. Já não há paciência. Enquanto psicólogos e pediatras perdem tempo a escrever que cada bebé se desenvolve ao seu ritmo e a mostrar as milhentas causas que podem explicar as diferenças, eu prefiro optar por uma versão mais sintética: as mães são parvas.

 

Não há nada que me faça mais comichão no nervo do que aquelas publicações do género "o meu menino está super desenvolvido e já sabe fazer imensas gracinhas, é mesmo espertalhão para a idade". Quero dizer, agora que penso nisso afinal até há. São aquelas respostas de merda a perguntas de mães preocupadas porque os filhos ainda não atingiram o marco de desenvolvimento X ou Y. Há sempre uma cabra qualquer, disfarçada, que responde "não se preocupe, é perfeitamente natural que o seu menino ainda não o faça mas, por acaso, o meu começou a fazer isso logo aos oito meses". Epá, as vezes que eu tenho que respirar fundo para não ir lá ofender aquele povo todo.

 

Não sei bem quando é que as crianças começaram a servir como compensação para as frustrações paternas. Não sei em que fase da evolução humana é que os pais começaram a acreditar que as crianças tinham que fazer tudo assim que abriam os olhos pela primeira vez. Mas sei que é este o ponto em que estamos. Às vezes, em público, a interacção entre pais e filhos adoece-me. Os putos têm que mostrar as gracinhas todas mesmo que estejam cansados, birrentos e sem vontade. Até dá vontade de lhes atirar uma moedinha no fim. Porra, metam-nos no circo. Pobres crianças.

 

Temos que meter a mão na consciência e decidir de uma vez por todas o que é prioritário: putos felizes ou putos pressionados para serem mais e melhor num claro atropelo aos seus ritmos e interesses? Salvo raras excepções, quase sempre justificadas por patologias graves, quantas crianças viram chegar ao pré-escolar sem andar, sem falar ou sem dentes? Bem me queria parecer... Andar aos dez meses, ter a dentição completa aos onze e recitar poesia em inglês com dois anos nunca foi uma garantia de sucesso no futuro. As crianças terão mais sucesso quanto mais amor, compreensão e respeito receberem na infância. O resto? O resto é treta. O resto são merdices de mães e pais mal-amados. Haja paciência.

 

 

30
Jan18

Os super pais

IMG_2809 (2).JPG

Hoje o pai cá de casa deitou-se no sofá para ver um bocadinho de televisão e, passados dois minutos, dormia o sono dos justos. Anda cansado, estoirado, rebentado. E eu fico a pensar que, muitas vezes, também com os homens a sociedade (que é como quem diz "as mulheres") é um bocadinho injusta. Se é verdade que conquistámos o nosso papel ao longo dos séculos e, felizmente, já não ficamos a espanar o pó da gruta enquanto eles vão caçar mamutes, também é verdade que a pressão que exercemos sobre eles aumentou brutalmente. Não é que a gente queira o mamute mas, se formos honestas connosco próprias, ainda queremos o caçador.

 

Vá, não comecem a abanar a cabeça e a dizer que não. Mesmo que cada uma de nós acredite que não faz cá pressão nenhuma, a verdade é que os homens também sentem que é suposto terem um six pack definido e um rabo rijo. Sentem que é suposto darem conta do recado no que aos trabalhos de maior carga física diz respeito, sentem que precisam de um óptimo desempenho sexual e, se souberem cozinhar, o bónus é adicional. Duvido que haja algum homem que não se sinta pressionado para "meter dinheiro em casa", matando-se a trabalhar mas sabendo que, ao mesmo tempo, precisa ser amigo, companheiro e confidente. Os homens sabem que precisam de tempo para a família e, mais do que tudo, precisam ser bons pais. 

 

E é aqui que tudo se complica. Não é que alguém espere que o homem escolha (pelo menos de forma minimamente decente) a roupa dos miúdos, não é que alguém espere que as crianças saiam de casa bem penteadas ou livres de ramelas quando são despachadas pelo pai. Mas todas esperamos que o pai monte a cadeirinha do carro, que leve os putos a jogar à bola, que os carregue às cavalitas, que fotografe todos os momentos, que tire o carrinho da bagageira, que os ensine a andar de bicicleta e os leve ao judo e à natação. E é suposto fazer isto tudo enquanto dá o litro nove ou dez horas por dia no trabalho.

 

Se é verdade que nós também aguentamos isto tudo e vamos sobrevivendo, entre suspiros e reclamações, não é menos verdade que a pressão também é alta do lado do cromossoma Y. Nós queimámos soutiens e fomos fazendo ouvir a nossa voz e as nossas queixas, tornámos conhecida a nossa "ladainha" e eles, mais silenciosos, foram ficando um bocadinho esquecidos, como se todas as pressões do mundo fossem exclusivamente femininas. Não são. E quando vejo o pai cá de casa assim estourado, esticado no sofá, lembro-me que devia ser um bocadinho mais tolerante porque o mundo é exigente dos dois lados e, já a minha avó dizia "não faças aos outros aquilo que não gostas que te façam a ti".

 

30
Jan18

E agora? Agora é dor.

IMG_20161126_141441 (2).jpg

Nos cursos de preparação para o parto, nos livros e fóruns sobre maternidade, em blogues mais ou menos da moda, um bocadinho em todo o lado vá, é abordado o assunto "baby-blues". A gente depois de parir, melhor ou pior, já está preparadas para o turbilhão emocional que aí vem, já sabe que existe uma grande probabilidade de cair na melancolia e estamos prontas para, tal como nos últimos meses, sempre que tivemos enjoos, fome ou irritabilidade, culpar as hormonas. As hormonas, malditas, são na verdade as nossas grandes aliadas. Têm costas largas e servem para desculpar (quase) tudo. Pronto, lá estou eu a dispersar...

 

Voltando ao ponto. Para a melancolia, para a confusão,  e para a tristeza a sociedade já nos vai preparando. É difícil que, hoje em dia, uma mulher seja apanhada de surpresa com o facto de não ser tudo um mar de rosas ali nos primeiros tempos. Para o que ninguém nos prepara é para a parte menos romântica e menos hormonal destas coisas todas, e essa tem um nome: dor. Caraças, como eu gostava que me tivessem dito que sempre que me sentasse ia sentir a episiorrafia toda a repuxar e depois, se me levantasse, era a sutura da cesariana que me fazia dobrar pelo meio (não estranhem, o parto por aqui foi uma espécie de "pague um e leve tudo"). Quem me dera que me tivessem dito que a pega da mama, mesmo correcta, dói que se farta ali nos primeiros tempos e a pessoa tem mesmo que cerrar os dentes para não arrancar a criança à força. Quem me dera que me tivessem dito que como consequência da manobra de Kristeller as costelas ficam de tal maneira lixadas que é impossível uma pessoa virar-se na cama ou mesmo respirar fundo (por falar nesta manobra, já acabavam com esta cagada que não é outra coisa que não violência obstétrica, pura e dura). Quem me dera que me tivessem dito que, depois de parir, mesmo com esquema de analgesia, me ia sentir dorida e doente. Fisicamente doente.

 

Durante muito tempo não falei disto, achava que tinha sido caso único. Mas depois comecei a falar com outras mães e quase todas referiam um mal-estar desgraçado ali nos primeiros tempos. Não sei se é uma consequência do cansaço (ninguém ache que as mães descansam alguma coisa na maternidade), se mais uma vez as hormonas são metidas ao barulho mas, a verdade, é que uma pessoa se sente fraca, doente e com dores. Eu juro que pensei seriamente que me tinham deixado qualquer coisa a sangrar cá dentro e eu estava ali, devagarinho, a perder hemoglobina. É óbvio que não deixaram nada e quando fiz análises estava tudo bem mas porra, que mal me sentia eu.

 

É claro que depois passou. E é essa a boa notícia. Tudo passa. Tudo menos o amor àquelas coisinhas minúsculas. Passa o baby-blues e passa o mal-estar físico, passam as dores e o medo de que alguma coisa esteja realmente errada connosco. Mas, por favor, não deixem as mulheres na ignorância. A maternidade vem com dor associada. A maternidade, que traz o maior amor do mundo, traz também um mal-estar difícil de explicar nos primeiros tempos. E não, não é tudo culpa do baby-blues. É que parir dói que se farta.

Pág. 1/2

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D