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A mãe imperfeita

Porque a maternidade é difícil. E as mães precisam de rir.

A mãe imperfeita

Porque a maternidade é difícil. E as mães precisam de rir.

23
Fev18

AmaTORMENTAção (ou "Eu e as mamas")

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Antes de começar a relatar a minha experiência, e para que não haja mal-entendidos, deixem-me já dizer que sim senhora, o leite materno é o alimento de eleição para os bebés e, se possível, deve ser administrado em exclusivo até aos seis meses de vida. É o alimento mais completo possível e as suas vantagens são de tal forma conhecidas que nem me vou dar ao trabalho de estar aqui a enumerá-las. Tendo deixado este ponto claro, vamos ao que interessa.

 

Ainda durante a gravidez fui percebendo que a amamentação era um assunto pouco confortável para mim. Nas aulas de preparação para o parto, nas pesquisas que fazia pela internet, nos relatos de outras mães... A beleza descrita pela maioria das pessoas foi-me sempre difícil de encontrar. Sempre que me imaginava a amamentar um bebé sentia um desconforto estranho mas, pressionada pela evidência, e sabendo que era o melhor para o miúdo decidi que iria tentar. Acho que, muito secretamente, ainda tive uma pequena esperança de não ter subida de leite ou assim mas, a verdade é que ainda o Pedro não tinha nascido e já o colostro me escorria em quantidades industriais.

 

Como o parto foi complicado e acabámos por ter uma cesariana com anestesia geral não vi o Pedro no dia em que nasceu. Eu segui para o puerpério e ele para a neonatologia onde, na primeira noite, foi alimentado com leite adaptado por copo. A fotografia que ilustra este post é já do segundo dia de vida e mostra a primeira vez que o Pedro mamou. A pega foi logo correcta e ele foi muito despachado mas, acreditem, ainda bem que não se vê a minha cara. Alguém me devia ter avisado que mesmo uma pega correcta era extremamente dolorosa ao início, até que o mamilo calejasse. Nem nesta primeira vez, nem em nenhuma outra, senti grandes coisas além de desconforto e alguma dor. Não senti nunca que fosse um importante momento de vinculação nem que era um momento mágico meu e do bebé. Na verdade só queria que ele se despachasse a mamar para depois, sim depois, poder enchê-lo de miminhos.

 

Com a saída do hospital as coisas não ficaram mais fáceis. Por muito óbvio que seja é sempre importante relembrar que o pai não tem mamas, isto é, ter até tem mas leitinho que é bom, nada. Todas as vezes em que o bebé precisa de mamar é a mãe que se tem que chegar à frente. Foi a natureza que o determinou e isto, já se sabe, as coisas são como são. No nosso caso a tentativa de parto vaginal trouxe-me algumas mazelas a nível da grelha costal que fizeram com que amamentar fosse extremamente desconfortável, independentemente da posição. As noites (e os dias) tornaram-se uma espécie de suplício em que me sentia pouco mais que uma escrava das mamas.

 

Fui andando para a frente, aguentando o barco, fazendo cara alegre. Mas o prazer nunca esteve lá. Eram os momentos menos felizes do meu dia com o bebé. Sempre que a hora de mamar se aproximava o meu humor deprimia. Além de tudo isto, em termos físicos, a amamentação teve um impacto muito negativo no meu corpo. Se já sou magra, a amamentar sentia-me a desaparecer. Bebia litros de água, estava sempre seca e fui perdendo peso até não ter um único par de calças que não me caísse pela cintura. Comecei a andar cansada, sem energia e a meter a amamentação cada vez mais em causa até que aos três meses, pela necessidade de fazer uma medicação incompatível com a amamentação, acabei mesmo por suspendê-la. E lamento informar mas nunca tive pena.

 

Os meus dias melhoraram muito. Voltei a ganhar peso e energia. O bebé manteve-se alegre e saudável. A altura do aleitamento, com o biberão, deixou de ser um stress. Era um prazer ver o meu pequenino comer e essa tarefa passou a ser dividida com o pai o que me permitiu descansar mais e melhor. A minha vida e a minha relação com o bebé melhoraram muito depois de terminar a amamentação. Se isto pode chocar muita gente? Se calhar sim, pode. Mas é apenas a verdade. Hoje sei que o leite materno é muito importante para o bebé mas, mais importante ainda, é que a mãe esteja saudável e feliz, disponível e inteira para se dedicar ao filho. Um biberão dado com alegria e amor pode ser mil vezes melhor para os dois do que uma mama em lágrimas. E nem me venham com a história da vinculação. Uma mãe que amamenta não gosta mais do filho nem está mais próxima dele do que uma que, por qualquer razão, não o faz. Acreditem que sei, passei pelas duas coisas.

 

Quanto a este bebé que aí vem o mais certo é experimentar amamentar outra vez. Sei que é o melhor para ele. Mas uma coisa vos garanto, assim que sentir que o caminho não é esse, não haverá arrependimentos nem insistências. É fim de linha. É leite adaptado. É amor em igual medida. Sofrer outra vez? Não, obrigada. Infelizmente a internet está cheia de autênticas bullies das mamas que não perdem uma oportunidade de apontar o dedo e de se superiorizar às mães que não amamentam (e se tiverem então o azar de dizer que não o fazem apenas por opção, uiii). É por isso que faço um apelo a todas as mães atormentadas pela questão das mamas: foquem-se em vocês e no vosso bem-estar, escolham sempre ser felizes. Não se castiguem. Dos nossos filhos, da nossa vida e do nosso coração sabemos nós. 

22
Fev18

Era uma vez...

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Comprei uma colecção de livros para o Pedro. Supostamente estaríamos a falar de uma colecção de histórias tradicionais mas, desgraçadamente, em nenhum lado avisavam que estas eram uma espécie de versão politicamente correcta, perfeitamente adaptada às mariquices de hoje em dia. Para terem uma ideia:

 

O Capuchinho Vermelho

1986: A menina vai a casa da avózinha e, ao contrário das indicações da mãe, acaba por atalhar pela floresta. Feita tonta conta ao lobo mau onde vai. O lobo, espertalhão, chega lá primeiro, come a avózinha e deita-se na cama disfarçado. Quando a Capuchinho lá chega o sacana tenta comê-la a ela também. Ela foge e encontra um caçador que captura o lobo, abre-lhe a barriga, tira lá de dentro a avózinha e no lugar dela mete pedras. Depois atira o lobo ao rio para ser comido pelos peixinhos e fim da história.

 

Hoje: A menina distrai-se a apanhar flores e acaba por entrar na floresta onde encontra um lobo que a consegue enganar por ser muito esperto. O lobo antecipa-se ao Capuchinho e efectivamente come a avózinha. Quando a menina chega e é atacada pelo lobo, consegue fugir e encontra o dito caçador. O caçador captura o lobo, faz-lhe uma incisão na barriga e retira a avózinha. Depois, com muito cuidado, volta a coser a barriga do lobo e amarra-o a uma árvore para que possa ser resgatado pelos outros lobos da alcateia.

 

Moral da história: Em 1986 o lobo mau sofria uma consequência penosa por ser, como hei-de dizer, malvado vá. Acabava por morrer afogado. A Capuchinho apanhava um susto de morte por ter desobedecido à mãe. Actualmente como já não há crianças desobedientes, só distraídas, a Capuchinho fica na mesma e o lobo mau, que se calhar só precisava de meia-dúzia de sessões de psicoterapia, tem um castigo assim levezinho. Amanhã pode fazer mais do mesmo e pronto. Os psicólogos precisam de trabalho.

 

 

A Gata Borralheira

1986: A Gata Borralheira vivia com a madrasta má e com duas meias-irmãs que, em cima da ruindade, ainda eram feias como o pecado. A madrasta escravizava a Gata Borralheira. Um dia houve um baile no palácio e a madrasta só levou as filhas feias. A Gata Borralheira ficou a chorar. Felizmente apareceu a fada-madrinha que lhe arranjou um vestido e transporte e ela conseguiu ir ao baile sabendo que o figurino se desfazia à meia-noite. O príncipe, quando a viu, apaixonou-se e dançaram toda a noite mas, às doze badaladas, ela teve mesmo que se pisgar. Graças a Deus perdeu um sapato de cristal e, no dia a seguir, o príncipe fez com que todas as donzelas do reino o experimentassem. Como a fada-madrinha tinha feito o sapato sob medida, só lhe serviu mesmo a ela. Casaram e viveram felizes para sempre. A madrasta e as irmãs cadelas viveram infelizes e amarguradas.

 

Hoje: A Gata Borralheira vivia com a madrasta e com duas irmãs com feitios um bocadinho particulares (já não são feias sequer). Todas ajudavam, ainda que a maioria dos trabalhos pesados ficasse para a Gata Borralheira. No dia do baile a madrasta não permitiu que a Gata Borralheira fosse porque a cozinha não estava bem limpa. Como a fada-madrinha tinha que entrar na história lá foi então transformar a abóbora em coche e arranjar um vestido de baile e uns sapatinhos de cristal. As regras do regresso a casa mantiveram-se e a parte de perder o sapatinho também. Para poupar letras, é tudo igual até à parte em que a Gata Borralheira convidou a madrasta e as irmãs para o casamento e depois foram todas viver com ela no palácio real, a escravatura doméstica toda perdoada e pronto. Corações, unicórnios e borboletas.

 

Moral da história: Em 1986 as irmãs e a madrasta eram castigadas por terem ostracizado e escravizado a Gata Borralheira toda a vida. Aprendia-se que as pessoas que mal-tratavam as outras acabavam por ser infelizes. Hoje em dia, tudo é perdoado e não faz assim tão mal ser-se uma cobra porque, no final, acaba sempre tudo bem. As atitudes, por terríveis que sejam, são geralmente isentas de consequências.

 

 

Os três porquinhos

1986: Era uma vez três porquinhos que eram irmãos. O mais novo era mega preguiçoso e fez uma casa de palha, o do meio era só meio-preguiçoso e fez uma de madeira e o mais velho, porco mas trabalhador, construiu uma casa de tijolos assim mesmo em condições. Um dia veio o lobo mau que derrubou as duas primeiras casas só com sopros. Felizmente os porquinhos preguiçosos conseguiram refugiar-se em casa do irmão trabalhador e, essa casa, o lobo não deitou abaixo com sopradelas. Como era obstinado o lobo tentou entrar pela chaminé mas, o porquinho mais velho, esperto que nem um alho, conseguiu prever a jogada e meteu lá um caldeirão de água a ferver. O lobo morreu queimado para não ser parvo e não andar a comer porquinhos.

 

Agora: Era uma vez três porquinhos que eram irmãos e muito amigos. O mais novo era mesmo brincalhão e construiu uma casa de palha para não perder tempo de brincadeira. O irmão do meio, bom dançarino, tinha muito que bailar e, por isso, fez a casa em madeira. Só o mais velho, que parece que tinha uma vida mais aborrecida, é que teve tempo para construir uma casa de tijolos. As casas de palha e de madeira são na mesma derrubadas com sopradelas do lobo e a de tijolos fica inteira mas quando chegamos à parte da chaminé começam as surpresas. Não é que o lobo não tenha descido por lá, que desceu, mas caiu de rabo na panela da sopa. Ficou tão aflito com o seu rabo queimado que fugiu para a floresta e nunca mais apareceu. Os porquinhos fizeram uma festa e cantaram e dançaram toda a noite.

 

Moral da história: Em 1986 existia uma recompensa para quem se dedicava a trabalhar, em detrimento do ócio, e fazia as coisas de forma consciente e metódica, sem pressas e trapalhadas. O lobo, porque não tinha nada que querer comer quem não devia, morria escaldado. Agora dá a sensação que o porquinho mais velho é aquele cromo sem vida social que ninguém convida para festa nenhuma e, portanto, pode bem perder tempo a fazer casas de tijolo. No fim safam-se todos, até o lobo (com meia-dúzia de pelos do rabo queimados e pronto).

 

 

 

Enfim, não vos aborreço mais. Mas ficam a saber que as Fábulas de La Fontaine também levaram cá uma volta... Porra, querem histórias politicamente correctas escrevam novas. Não deturpem o que já existe. Aposto que os escritores das versões originais andam todos às voltas na tumba. 

21
Fev18

A maternidade explicada em provérbios #1

 

Nunca digas desta água não beberei

Quando engravidei li tudo o que encontrei para ler sobre parentalidade, fixei um zilião de teorias, milhentos nomes de pedagogos conceituados, centenas de conselhos práticos sobre a melhor forma de lidar com as crianças. No dia antes do Pedro nascer já sabia que com seis meses o ia passar para o quarto dele, já sabia que não o queria a dormir na nossa cama, já sabia que quando recusasse a sopa não lhe ia oferecer o segundo prato e que jamais ligaria o tablet à hora das refeições. No meio de tantas certezas a única coisa que cumpri foi que, efectivamente, aos seis meses passou para o quarto dele. Mas aos doze, com os primeiros pesadelos, saltou directamente para o nosso quarto e, pior ainda, para a nossa cama. E está de tal forma bem instalado que já vai fazer três meses que por lá permanece. Todos os dias penso em dar-lhe ordem de expulsão mas depois... Olha, é só mais hoje. E ele lá vai ficando... Entretanto, e no que à comida diz respeito, já engoli dez vezes todas as minhas teorias. Prefiro mil vezes ligar o tablet e vê-lo comer sossegado do que passar a refeição a tirar-lhe as mãos de dentro do prato e outras badalhoquices afins. Todas as coisas que eu jurava a pés juntos nunca fazer tornaram-se na "água que bebo". É a vidinha.

 

 

A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha

Este, se calhar, depois de todos os meus posts anteriores já nem era preciso explicar mas cá vai... Nisto da maternidade não há como não estar constantemente a olhar para a "galinha da vizinha". Quando damos por nós estoiradas, mal-encaradas, aborrecidas e desarranjadas, inevitavelmente acabamos a olhar para outras mães que parecem saídas de um anúncio de manteiga magra. E, sem percebermos como, elas andam impecavelmente arranjadas, com um ar sereno e de quem tem toda a paciência do mundo para os seus rebentos que, por acaso, também andam sempre bem vestidos e penteados. Os nossos, ao lado deles, parecem ciganitos e nós, ao lado delas, parecemos umas maníacas a um passinho do esgotamento. E não sejamos mentirosas a dizer que nos estamos a marimbar para isso porque, na verdade, mesmo que o estejamos em 99% dos dias, há sempre um cabrão de um dia qualquer em que é inevitável não olhar e pensar "mas porque raio é que não consigo ser assim também?". Não me vou meter aqui com grandes teorias que esse não é o objectivo deste post mas, há uma frase que circula pelas redes sociais agora que diz qualquer coisa como "estamos todas a perder a sanidade mental, só que umas disfarçam melhor que outras", e acho que esta frase resume tudo. Mas há dias, ui, há dias em que é quase impossível não olhar duas vezes para a "galinha da vizinha" e não a imaginar depenada e pronta a entrar na panela da canja.

 

 

Cada cabeça sua sentença

Na maternidade tudo opina, graças a Deus. Não há cão nem gato que não tenha opinião e imensa experiência sobre todos os assuntos. Tudo o que os pais decidem é passível de ser comentado e discutido mas, a parte pior, é que nunca nada é consensual. Se a mãe diz para dar banho ao bebé de manhã, logo a sogra dirá que o melhor banhinho é à noite para acalmar o menino. Se o pai acha que o menino está corado e com boa vitalidade, o avô achará certamente o menino magrinho e assim para o amarelado. Se os pais fazem uma festa porque o menino começou a andar, os tios torcem o nariz porque já acham que ele tem é idade para correr. E começamos a viver num mundo tão cheio de opiniões que acabamos todos por chegar à mesma conclusão: só a nossa é que conta e pronto. Quem é que os fez? Quem é que os pariu? Então somos nós que sabemos e fim da conversa. Reparem, nem entre pediatras, por exemplo, se conseguem opiniões consensuais. Se estivermos à procura de fórmulas universalmente aceites morremos sem ter feito nada. Mas lá que as milhentas opiniões nos fazem a cabeça andar à roda... Lá isso fazem! Aproveito, por isso, para fazer um apelo a todos os familiares e amigos que rodeiam crianças pequenas: estejam caladinhos, cerrem a boquinha e guardem as vossas opiniões para vocês próprios. O mundo agradece.

 

 

Casa roubada, trancas à porta

Um dia o Pedro comeu uma vela de cheiro que estava em cima da mesa da sala. Nesse dia escondi todas as velas. Um dia o Pedro trepou a mesinha de centro e caiu de cabeça no chão. Nesse dia tirei a mesa. Um dia o Pedro meteu o piaçaba na boca. Nesse dia comecei a trancar a casa-de-banho. Um dia o Pedro caiu da minha cama abaixo. Nesse dia comecei a meter cadeiras do lado dele... Podia estar aqui horas a debitar a quantidade de "trancas" que já meti nesta casa mas, na verdade, serão sempre insuficientes. A sensação que tenho, enquanto mãe, é que passo o tempo a correr atrás do prejuízo porque sempre que anulo um perigo ele descobre outro. Por muito que eu olhe e tente prever todas as possibilidades ando sempre um passo atrás dele. Na maioria das vezes os problemas (que eu nem sabia que o eram) só são resolvidos depois do mal estar feito. E desconfio que deve ser assim nas casas todas. Muito gostava eu de saber como é que estas coisinhas que nem ao metro chegam têm uma imaginação tão pródiga no que ao disparate diz respeito. Ou será só o meu?

 

 

Querer é poder

Deixei para último o provérbio que, para mim, mais intrinsecamente se relaciona com a maternidade. Não importa o cansaço, não importa que o dinheiro não abunde, não importa que estejamos doentes. A gente pode tudo. As mães são uma espécie de super-heroínas que de tanto quererem acabam por conseguir tudo. Quando olhamos para eles queremo-los tanto e tão bem que a força chega sempre de algum lado. Pode chover lá fora e cá dentro que os nossos meninos chegarão sempre ao fim do dia de coração aquecido. E de alguma maneira haverá jantar na mesa, lençóis lavados na cama, bebés perfumados e brincadeiras antes de dormir. Mesmo que haja momentos de desespero, mesmo que os nossos olhos já mal se consigam manter abertos. E de tanto querermos (e de tanto os querermos) acabamos mesmo por poder tudo. É que por eles a gente veste a capa e empurra o mundo até onde for preciso. 

18
Fev18

Ser bom pai é pensar nos nossos netos

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Enquanto pais muitas são as preocupações que nos ensombram diariamente. É demasiado difícil não tentarmos prever cenários a médio prazo. Todos os pais querem o melhor para os seus filhos e, não raras vezes, ainda mal nasceram e já pensamos nas escolhas profissionais que farão, nas ferramentas que lhes devemos oferecer. Passamos a vida a desdobrar-nos para chegar a todo o lado tendo sempre como objectivo final dar o melhor aos nossos filhos. Queremos que os nossos filhos sejam importantes, que ganhem o seu lugar, queremos deixar bons filhos para o mundo. Mas será que já parámos para pensar que mundo queremos deixar aos nossos filhos?

 

A comunicação social, nos últimos tempos, tem vindo a passar notícias cada vez mais preocupantes. Na Cidade do Cabo a água está racionada e aguarda-se a chegada do chamado "dia zero": o dia em que ao abrir as torneiras nem uma gota correrá. Com as medidas impostas pelo governo tem sido possível adiar consecutivamente este dia que está agora marcado para quatro de Junho. A seca extrema, que fez cair o nível de água das barragens de 86% em 2014 para 24,9% neste momento, é a grande responsável pela escassez deste recurso mas... Será a única? Será que não continuamos a usar e abusar da água como se ela fosse um bem inesgotável? Será que não continuamos todos nós a desenvolver uma relação promíscua com o recurso mais vital de todos?

 

E se, para alguns, esta parece uma realidade distante deixem-me lembrar-vos que, por cá, não estamos muito longe deste ponto. Como sabem vivo no Alentejo e aqui a seca também é uma realidade. No Verão muitas povoações viram o seu abastecimento de água ser realizado por camiões cisterna e o fluxo de água nas torneiras esteve restrito a poucas horas do dia. Mas as pessoas têm memória curta e parece que já voltámos à abundância costumeira. O problema é que a abundância é ilusória. As nossas barragens continuam secas, o Inverno tem sido muito pouco chuvoso. Quando o Verão chegar teremos problemas bem maiores que no ano passado. Vai-nos valendo o Alqueva. Até quando?

 

Somos pais. É imperativo que sejamos nós a dar o exemplo. É imperativo que sejamos os primeiros a tomar banhos rápidos, a fechar a água enquanto lavamos os dentes, a usar os programas económicos nas máquinas de lavar, a evitar consumos fúteis e desnecessários. E é urgente que passemos estas ideias aos nossos filhos. Eles têm que perceber que é mandatório poupar água hoje se queremos ter água amanhã. Todos temos que ser activistas nesta causa. Cabe-nos a nós, e só a nós impedir que os nossos netos vivam numa realidade em tudo semelhante às que conhecemos das distopias literárias, onde a água é um bem tão escasso que muitos morrem simplesmente por não lhe ter acesso. No ponto em que estamos esta ideia está longe de ser ficção científica. No ponto em que estamos é absolutamente real. E é amoral a forma como a esmagadora maioria da população deste país continua a abusar da água.

 

Não basta deixarmos bons filhos para o mundo. Temos que olhar, também, para o mundo que deixamos aos nossos filhos. E aos nossos netos. Tudo depende de nós. E isso passa, não por inscrevê-los em dezenas de actividas extra-curriculares, mas sim por torná-los cidadãos conscientes, respeitadores e perfeitamente cientes que a água corrente não é um dado adquirido. A água é finita, infelizmente.

17
Fev18

Recados de uma grávida sem filtros

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1. Eu e tu somos muito amigos? Frequentas a minha casa? Falamos sobre séries? Já viajámos juntos? Jogavas basquete comigo quando éramos miúdos? Sabes o nome dos meus pais? Se respondeste afirmativamente à maioria destas questões então "mi casa es tu casa" que é como quem diz que estás autorizado a meter a mão na minha barriga. No caso de resposta negativa peço-te encarecidamente que mantenhas as tuas mãozinhas longe de mim. Deixa-as no teu bolso e, se mesmo assim o frenesim for irresistível, experimenta, sei lá, enfiá-las naquele lugar que nunca vê a luz do sol. Cá ver se nos entendemos, esta barriga é minha e, até onde posso perceber, continua a ser parte integrante do meu corpo. A cena de ter um bebé lá dentro não é tipo um free pass que outorga a toda a gente o direito de se vir aqui esfregar, boa? Portanto não, não é simpático, fofinho ou sequer um bonito gesto da tua parte. É uma devassa da minha privacidade e eu odeio que o faças.

 

2. Reparaste que as minhas maminhas cresceram? Deixa-me parabenizar-te pelo teu incrível poder de observação. Gostava, contudo, de te informar que se pertences ao sexo masculino qualquer comentário a esse respeito vai apenas parecer grosseiro e mal-intencionado, posto isto, deixa-te estar caladinho que assim fazes poesia.

 

3. Estás na fila da caixa no supermercado e não te enquadras na categoria de prioritário nem aqui nem na China? Escusas de me atirar esse olhar que eu não tenho medo nenhum de ti. Quem carrega um puto, ciática, diabetes gestacional e outras complicações que nem queiras saber é, no mínimo, uma super mulher e, vai daí, olhes o que olhares e digas o que disseres vou fazer prevalecer o meu direito. E o meu direito é passar-te à frente. Atira-te ao chão, grita, esperneia. Como diriam ali no outro lado da fronteira "me da igual". Já passei. Adeuuussssss.

 

4. Sim, estou na mesma. Sim, só tenho barriga. Sim, o puto está bem, obrigada pela preocupação. Sabes que na primeira gravidez só engordei 8Kg e pari um rapagão de 3660g às 37 semanas? "Ah e tal, mas é que de costas nem se nota"... Eu sou tão esquisita que, isto há com cada coisa, o meu puto decidiu crescer dentro do meu útero em vez de crescer dentro das minhas nádegas, acham normal? E não, não sou uma Carolina Patrocínio e até estou de molho em casa mas então, não há meio de se me abater aquela fome que faz as pessoas quererem comer o mundo... De qualquer forma, e se isso te sossega, o pai dos putos já deixou claro que não tenciona vender-me ao quilo.

 

5. Não é giro passares a vida a bombardear-me com todas as histórias terríveis sobre partos que conheces. Acredita que tenho imaginação e conhecimentos suficientes para construir os cenários mais macabros e assustadores. Ah, e tive um primeiro parto que foi para cima de uma merda. Ventosas, fórceps, cesariana de urgência, já experimentei um bocadinho de tudo. Estou borrada de medo. E acredita, não é giro incrementar o medo de uma mulher grávida. Fica portanto a informação de que cada vez que começas com um desses relatos de desgraça o meu cérebro inicia um processo de te mandar a uma dúzia de sítios super agradáveis onde o melhor que te pode acontecer é a sodomização à bruta.

 

(Caraças que isto, depois de desabafar, uma pessoa fica sempre muito mais levezinha...)