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A mãe imperfeita

Porque a maternidade é difícil. E as mães precisam de rir.

A mãe imperfeita

Porque a maternidade é difícil. E as mães precisam de rir.

05
Fev18

Quando eles ficam doentes

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Ter nas mãos um teste de gravidez positivo é mais ou menos como comprar um bilhete só de ida para um mundo de preocupações permanentes. A partir desse dia, de uma maneira ou de outra, nunca mais temos descanso. É claro que há gravidezes melhores que outras e, por isso, é após o nascimento que tudo adquire uma proporção mais ou menos igual para todos os pais. Ouvimos atentamente o CTG durante o trabalho de parto e, se por acaso há uma desaceleração, o nosso coração quase que pára de bater. Assim que nascem queremos saber o índice de Apgar. Perguntamos se está tudo bem com eles, porque raio estão arroxeados, porque é que o choro não é tão vigoroso como achamos que deveria ser. Na eventualidade dos putos terem que ir para a neonatologia (o Pedro foi, nasceu em hipoglicémia uma vez que fiz todo o trabalho de parto sob perfusão contínua de insulina) começa o nosso primeiro "calvário" enquanto mães. Já não bastam as preocupações normais da adaptação a um novo bebé, é preciso juntar-lhes as preocupações de ordem clínica. Tive a sorte do Pedro ter alta no mesmo dia que eu. Voltei para casa com ele nos braços. Nem consigo imaginar o que sentem uns recém-pais que voltam a casa de mãos vazias.

 

Em casa as preocupações continuam. Uns porque não aumentam de peso o suficiente, outros porque choram toda a noite e ninguém dorme. Chegam as cólicas e depois, especialmente com o Inverno, começa a saga das bronquiolites. O Pedro tinha três meses quando chegou a dele. Foi pela altura do Carnaval, está a fazer um ano. Não houve máscaras para ninguém. Mas houve aerossóis de quatro em quatro horas, houve momentos de aflição quando a dificuldade respiratória ficava mais evidente, houve angústia e culpa por tê-lo levado à rua. Ver os putos doentes mata-nos e, se toda a vida desprezei lugares-comuns, quem me dera ter sido eu em vez dele.

 

Quando chega a altura da creche a palavra "virose" torna-se uma das mais comuns do léxico materno. Uns putos vão aguentando melhor, outros pior, mas de uma ou outra ninguém escapa (e, às vezes, não escapam eles nem a gente). Na primeira vez que vi o Pedro vomitar apanhei uma pilha de nervos que acabei presa a um ataque de riso histérico. Felizmente ele tem sido relativamente resistente (já basta a saga dos ouvidos que até cirurgia meteu em Dezembro do ano passado) mas, o que compensa num lado derrete em acidentes domésticos. Comeu uma vela de cheiro, bebeu gel de banho, caiu da minha cama abaixo, pisou um brinquedo e acabou por bater com a boca num puxador de gaveta que o fez sangrar até eu ficar em lágrimas, enfim... Sossego? É capaz de haver, só não é cá em casa.

 

O nosso coração não está preparado para ver os filhos a sofrer. Nunca vai estar. Só uma mãe/pai sociopata é que não dava tudo para poder trocar de lugar com eles. Quando os nossos filhos são hospitalizados o mundo pára de girar, a força deixa as nossas pernas, a inteligência abandona-nos. Vamos buscar força ninguém sabe bem a que lugar, talvez ao sacana do amor infinito, não sei. Mas lá nos vamos aguentando. Mal comidas, mal dormidas mas seguimos em linha recta porque por eles até a rota da Terra a gente muda. Nunca se metam com uma mãe.

 

(E se há coisas estúpidas na vida são as coincidências que realmente não sabemos explicar. Escrevi este texto que deveria acabar no parágrafo acima mas, dois ou três minutos depois de o escrever, enquanto o relia para procurar "gralhas" recebi uma mensagem que me dizia que mais uma menina foi diagnosticada com leucemia. Porra, deve haver poucas dores como esta. Suponho que estes pais, desfeitos, estejam neste momento a tentar encontrar força para arregaçar as mangas e partir para a maior luta do mundo: a luta pela vida de um filho. Sei que não é preciso reforçar mais esta ideia mas, ainda assim, não consigo deixar de o fazer: todos podemos ajudar. Dar sangue custa zero. Inscrever-se como dador de medula igual. Hoje pelos outros, amanhã por um dos nossos. Puta que pariu o cancro.)

04
Fev18

A dieta do bebé

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Ora bem, mais um tema fracturante e que, a seguir às mamas, é capaz de ser aquele que mais fundamentalismo gera e mais discussões suscita em fóruns de mães. O que é que os bebés podem comer? Devem fazer BLW? Devem comer sopinhas? Começam pela papa ou pelas sopas? As papas devem ser caseiras ou industriais? Podemos dar frutos vermelhos com que idade? E carne de porco?

 

Ora bem, de acordo com a minha experiência, que vale o que vale, vou tentar responder a todas estas questões de forma absolutamente imparcial e coerente. Então, a coisa é a seguinte: os bebés podem comer tudo aquilo que os pais, em conjunto com os profissionas de saúde decidirem. Se o pediatra mandar dar morangos e carpaccio de novilho aos seis meses, força nisso. Se, por acaso, defender que o sushi é óptimo para o bebé, é avançar. Se os pais forem veganos e decidirem criar o puto desde os quatro meses a tofú e grão-de-bico, óptima ideia. Se, numa versão mais conservadora, a coisa começar com sopinhas de batata e cenoura é avançar sem medos. E quem diz sopinha diz batata e cenoura cozidas, assim mesmo inteirinhas mas, acreditem em mim, com BLW ou com sopa à colherada os putos vão saber mastigar quando chegarem à escola primária. Ah, já me esquecia, começar pela sopa ou pela papa é, mais uma vez, uma escolha individual de cada família e que depende de inúmeros factores como, por exemplo, o peso de cada bebé. As mães que começam pela papa não são todas umas cabras preguiçosas, acreditem e, surpresa das surpresas, nem sequer gostam menos dos filhos.

 

Quem realmente gosta menos dos filhos, isso toda a gente sabe, são as horrorosas que optam pelas papas industriais em vez das papinhas caseiras que toda a gente sabe que são muito mais ricas em termos nutricionais e feitas com muito mais rigor em termos de higiene e preservação de micronutrientes. Ou então não, pois. Juro que por causa das papas já tive tantas discussões que estava na altura da Nestlé me começar a pagar uma comissão mensal. Enfim, reparem, eu escolhi, de forma absolutamente consciente e fundamentada, dar papas industriais ao meu filho ainda que sim, é verdade, sejam mais ricas em açúcares. A questão é que também são mais ricas num porradão de outras coisas e eu consigo saber, por porção, quanto de cada nutriente lhe estou a oferecer. Agora, muito sinceramente, acho óptimo que haja quem opte pelas papas caseiras. Só não me chateiem com essa merda. Não me venham pregar sermões que eu não sou um peixe daqueles de Santo António, percebem? Os vossos comem papas caseiras? Parabéns. Boa escolha. O meu come papas industriais? Parabéns. Boa escolha. É este o espírito, certo? Cada mãe, cada pai, sabe o que é melhor para o seu filho e escolhe em consciência. Abstenham-se de críticas idiotas que, na maioria das vezes, são fundamentadas em coisa nenhuma excepto num chorrilho de disparates e lugares comuns que, de científico, têm zero. 

 

Nunca fiz uma ementa semanal para o Pedro, desgraçado, mas acreditem que está ali um belo rapagão, a manter as suas curvas de percentil desde que nasceu (e se não mantivesse duvido que isso estivesse relacionado com a ausência de programação das sopinhas). Desde que fez um ano, com excepção da carne de porco, dos frutos secos e do marisco, que ele come exactamente o mesmo que nós mas sem sal. Já provou sopa de grão com massa, açorda de alho e sopa da panela. E adora. Nunca provou aveia, quinoa ou sementes de sésamo (ia escrever sementes de chia mas olhem, até o nome me parece aparvalhado). Mas se eu fosse uma dessas mães que acreditam no alinhamento de chakras e nas cores da aura se calhar já tinha provado essas coisas todas e estava feliz e maravilhoso na mesma.

03
Fev18

As virgens ofendidas

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Em primeiro lugar esclarecer que este não é propriamente um post sobre a maternidade. É sobre a vida, assim no geral. Sim, porque a vida, em toda e qualquer circustância está cheia desta praga que, não sei porquê, essas pessoas que mandam inistem em não decretar calamidade pública. Refiro-me, obviamente, às virgens ofendidas e, ao contrário do que possa parecer, não é só na internet que elas existem (apesar da internet ser, claramente, o seu habitat de eleição). Vamos por pontos:

 

1. Sabem que sou enfermeira, certo? Há uns tempos fiz uma publicação no meu facebook pessoal que se tornou viral. Essa publicação dizia, algures, que a enfermagem não é uma vocação, é uma profissão. Não estão bem a perceber o ruído que esta afirmação causou. Fui praticamente retalhada às postas por uma antiga professora primária que, para além de ter comentado a publicação, muito indignada, ainda veio para o messenger moer-me a cabeça. Que a enfermagem era como o ensino, se não tinha vocação que me fosse embora, era mais uma parasita. Fiquei ali naquela, respondo ou não respondo? Acabei por não responder mas epá, tanta coisa que me apetecia ter-lhe dito. A dita senhora professora toda a vida deve ter prescindido do vencimento, deve ter passado anos a dar aulas a crianças desfavorecidas em África e agora, na velhice, tendo certamente recusado qualquer reforma, deve estar aflita para pagar as despesas médicas causadas pelas dores nas costas, mesmo no local onde lhe estão a romper as asas. Zero paciência para estas pessoas, do melhor que o mundo tem, cheias de boas intenções e vocação. Já eu, grande ursa, quero é ser paga (e de preferência bem paga) pelo trabalho que faço e para o qual estudei e me preparei durante anos. É assim tão difícil de perceber?

 

2. Quando estava grávida do Pedro fiz uma diabetes gestacional lixada. Acabei a gravidez internada a dar doses cavalares de insulina rápida, uma coisa assim mesmo para o melhorzinho. Na altura do diagnóstico da diabetes comecei a chamar-lhe "o meu parasita". Uiiiiiiii. Como é que é possível? "Esta cabra não gosta do bebé, chamar parasita à criança, que mau gosto, que falta de tudo". Ó senhoras, cheguem-se cá a mim que tenho um recadinho para as queridas: ide cagar! O puto é meu e chamo-lhe o que quiser. A alcunha dele cá em casa é "macaco líder" (e esqueçam lá que não tem porra nenhuma a ver com o outro lá da claque do FCP),e agora, de vez em quando, chamo-lhe "o meu mouquinho". Ainda assim dou a vida por ele sem hesitar meia vez. Yah, pelo meu parasita, macaquinho, mouquinho. Vocês certamente gostam mais dos vossos filhos porque lhe chamam fofinho, lindinho e bebézinho. Tanta falsa moral, tanta parvoíce.

 

3. Numa brincadeira escrevi uma pseudo piada parva com o nome das duas miúdas mais pequenas da Luciana Abreu. Não sabia que a mulher tinha um clube de defensores acérrimos e dementes. Fui ensaboada da cabeça aos pés. Pedro é que é bonito, diziam eles. Epá, se é bonito ou não, fica ao critério de cada um mas uma coisa ninguém lhe tira: é normal, comum. Se a Luciana Abreu ficasse realmente incomodada com o que se escreve sobre o nome das crias, depois de uma Lyonce e de uma Lyannii tinha tido uma Maria e uma Ana, não? A mulher está-se a cagar, assim como eu. Só estas virgens ofendidas é que não porque elas, defensoras da moral e dos bons costumes, não se podem estar a cagar para nada, têm que dormir com um olho aberto e outro fechado não vá o mundo desabar por falta de inspecção.

 

Enfim, podia relatar aqui mil casos como estes. A minha vida, especialmente nos últimos tempos, tem sido levar com gente desta, que se ofende por toda e qualquer porcaria. Até tinha uma gira para contar, numa discussão sobre papas caseiras vs papas industriais, mas acho que vou guardar essa para o álbum "pérolas das super mães". Pessoas, gente ofendidinha, miseráveis de vida triste: desamparem-me a loja, morram longe, sumam-se, explodam. Mas, caraças, deixem-me em paz.

 

Ah, para finalizar que isto já vai tão extenso que aposto que a maioria das pessoas não vai ter paciência para ler, tenho-me debruçado a sério sobre este fenómeno das virgens ofendidas e cheguei à conclusão que, em 90% dos casos, não é o que a gente escreve que as importuna. É o analfabetismo funcional que carregam, a incapacidade de compreender aquilo que lêem, a interpretação literal e pouco inteligente de tudo o que lhes aparece escrito pela frente. Voltem à escola. Ou voltem à vida, a uma vida, à vossa vida. Ou o problema disto tudo é que não têm uma?

02
Fev18

Na minha casa ou na tua?

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Na casa dos outros:

Os primeiros raios de sol adentram o quarto, elas acordam antes do despertador depois de um revigorante sono de oito horas. As crianças ainda dormem, cada uma no seu quarto. Elas colocam os pés fora da cama e sentem de imediato o conforto do tapete suave que lhes acaricia os pés impecavelmente arranjados. Seguem para o banho, com atenção para não molhar o cabelo (esse é o trabalho da cabeleireira, evidentemente). Depois de vestirem a roupa elegante deixada pronta na véspera é altura de se sentarem ao espelho e começarem os rituais de maquilhagem: creme hidratante, primer, base, iluminador, máscara de pestanas, pó bronzeador e um leve toque de gloss. Calçam os stiletto et voilá. É altura de ir acordar os meninos. 

Esses meninos, que ainda dormiam a sono solto, acordam ao primeiro beijinho da mãe. Estão felizes e bem-dispostos, saltam da cama com energia e vestem as roupinhas a fazer pendant que a mãe tinha escolhido no dia anterior. Lavam a cara e penteiam as cabelos enquanto vão trautendo canções infantis. Não estão ranhosos nem com tosse. E assim a família, praticamente pronta, reúne-se à mesa-do-pequeno almoço, cheia de opções saudáveis com imensas sementes que fazem maravilhas ao metabolismo e sumo de laranja natural. A mãe já tinha a massa das panquecas (de aveia e sem açúcar) preparada e as crianças comem regaladas. Depois, sem uma única nódoa como testemunha, todos lavam os dentes e seguem felizes em direcção aos respectivos empregos enquanto, no carro, se ouve Debussy em fundo.

 

Na minha casa:

Sinto a mão do Pedro na minha cara, já nem me lembrava que ele aqui estava, o pai deve tê-lo trazido algures pela madrugada. Olho para o relógio. São 6h50'. Porra, outra vez arroz, que é como quem diz outra noite de apenas quatro horas de sono. As minhas olheiras já têm lugar cativo. Levanto-me e acerto com um pé no chão gelado, pego o puto ao colo porque, entretanto, começou aos gritinhos. Abro a janela. Está a chover. Vou à procura de uma coisa qualquer para vestir, lembro-me que tenho um vestido prático que era capaz de ser boa ideia. Não o encontro em lado nenhum. Está para passar, porra. Plano B? Leggings e camisolão, com uma probabilidade de 90% de pelo menos um deles ter um buraco algures. Calço uns ténis. Enquanto isso o Pedro anda aqui pelo chão a resmungar, aposto que tem fome. Pego nele e vou à procura de um fato de treino para lhe vestir. Ele está birrento, a espernear, vira-se e foge mil vezes enquanto o visto. A fralda deve pesar uns 5Kg. Sento-o na cadeira da papa. Num dia bom esmago uma banana e trituro duas bolachas Maria que depois rego com sumo de laranja. Hoje não é um dia bom, come dois iogurtes. Bebo um iogurte líquido que me vai servir de sustento até à hora de almoço. Pego no puto que entretanto já tem o cabelo cheio de iogurte e vou com ele à casa-de-banho. Arma uma birra porque quer lavar os dentes sozinho, outra birra porque quer ser ele a fechar a torneira e outra porque me distraí e apaguei a luz. Faço-lhe má cara e digo que quem manda sou eu mas abro a torneira e acendo a luz outra vez. Vejo que ficou uma ramela mas já não há cá vagar para paneleirices. Tiro-a com um dedo. O sacana está cheio de farfalheira. Outra vez. Estamos prontos para sair, é só enfiar-lhe o blusão e o gorro. Pára tudo, está a ficar púrpura, e roxo e de olhos esbugalhados. A fazer cocó. Estou atrasada. Carrego-o para o sofá, ligo a televisão na baby TV porque preciso mesmo que ele fique quieto agora. Sujou o body. Despir e vestir, round 2. "Livra-te de cagar outra vez agora meu menino" penso eu enquanto ele me dirige aquele sorriso inocente de sete dentes. Pego na mochila dele, faço a segunda tentativa de aproximação à porta de casa e, desta vez, com sucesso. Levo-o à creche, a pé, felizmente é perto. Olho para os outros miúdos e vejo-os todos tão bem-vestidos que pergunto o que se passa. A educadora olha para mim e responde "então, hoje é o dia das fotografias". Fod@-se.

 

nota1 - Roubei a fotografia do Google. Dá prisão?

nota 2 - Já deixei de achar piada a esta cena dos tremores de terra. Dá para parar com a brincadeira?

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