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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

31
Jul18

Grupos de mães no Facebook #13

 

trinta graus.png

 

Para as pessoas que não dormem os dias são todos iguais e saber se é Segunda ou Terça-feira é uma espécie de pormenor irrelevante. Além disso confesso que tinha saudades desta rubrica e, portanto, só assim naquela de não ressacar, e não havendo  tempo para mais, espero que aceitem uma espécie de "mini edição" em modo mixórdia. Escolhi quatro posts aleatórios, sem qualquer relação entre si que não o facto de todos colocarem uma dúvida, e decidi responder com o meu costumeiro bonito modo (que a exaustão só aguça). E antes que comecem a chover ofensas aviso já que quem não quer ser lobo não lhe pode vestir a pele o que, neste caso concreto, é equivalente a um "deixem-se de cagadas em grupos abertos onde estão milhares de pessoas". Vá, vamos a isso. 

 

1. Olá meninas, estou preocupada. Viemos agora da consulta dos três meses e o meu X., apesar de estar a aumentar bem de peso, já encolheu 10cm desde o nascimento. A que acham que se pode dever isto? 

Pois, eu queria gozar com a situação mas não posso. E sabem porquê? Porque eu própria me debato com este dilema inúmeras vezes. Ainda há duas ou três semanas foi com a forra de um colchão. Não é que enfiei com aquilo na máquina a 60 graus e agora não cabe lá a parte da esponja dentro de maneira nenhuma? Já puxei, já estiquei, já fiz trinta por uma linha e nada resultou. Encolheu, está encolhido. E isto é tão recorrente na minha vida que me sinto absolutamente apta para responder à questão colocada: o puto encolheu porque a pessoa não olhou para a etiqueta e anda a programar as lavagens para uma temperatura demasiado elevada. A ver se aprende a lição e, para a próxima, se limita ao programa dos 30ºC.

 

2. Boa tarde mamãs. O meu filho mais velho, de quase sete anos, anda impossível. Faz imensas birras, nunca quer comer e, pior de tudo, está sempre a levantar a mão a toda a gente. Será um pico de crescimento?

Não sei se é da maternidade recente mas sinto-me estupidamente empática hoje. É que nem imaginam como eu percebo que a pessoa já use profilaticamente o pico de crescimento na pergunta, uma vez que é a resposta dada a cerca de 90% das questões colocadas em grupos de maternidade. E se a coisa até pode ser verdade também é irritante para burro. Às vezes uma pessoa só quer sentir solidariedade e ouvir coisas animadoras do tipo "também tenho um monstro desses cá em casa". Mas não, há sempre alguém que vem falar no pico de crescimento e dizer que temos que ter imensa paciência, imenso amor e imenso espírito de sacrifício. Pronto, em relação à pergunta em concreto não sei responder porque não faço ideia até que idade os picos são uma realidade. Mas conheço homens de trinta anos que ainda estão em claras dificuldades na adaptação à vida extra-uterina, por isso...

 

3. Migas, ontem fui à cabeleireira para dar um corte no cabelo e ela avisou-me que estando eu grávida cortar o cabelo podia não ser bom. A coisa estranha é que quando perguntei porquê ela só encolheu os ombros e não me quis esclarecer. Olhem, fiquei com medo e acabei por não cortar. Vocês sabem alguma coisa sobre isto? Já ouvi histórias que a minha cabeleireira tem "poderes"...

Sobre poderes sei poucochinho mas sobre más cabeleireiras? Uiiii, tenho praticamente um curso tirado. Agora a sério, essa nem para ela é boa caramba. Com a vida difícil como está e vai-se meter a perder trabalho assim? Lá porque a criança podia vir com um terceiro olho, com pêlo nas costas ou ficar entalada pelos tornozelos a pessoa vai recusar um cortezinho? E que cabeleireira é que recusa cortar cabelo? Isso existe mesmo? Credo. Olhe, eu vou ao salão da Bete, quer que lhe envie o contacto? Ela corta a grávidas na boa e tem o poder espectacular de me deixar cada vez mais pobre. Acha que serve?

 

4. Pergunto por mera curiosidade mas imaginem que sendo vocês brancas e tendo dormido com alguém de raça africana, qual a probabilidade do bebé nascer branco como vocês?

Miga sua lôca, cê dormiu com o négão e agora tá com medo né? Pois pá, a Mãe Imperfeita não brinca em serviço e foi espreitar o teu perfil. E viu o teu marido que é primo do Gasparzinho. Posto isto ou a dúvida é para ajudar "uma prima" ou estás borradinha que o puto te saia mulato, né? Por acaso há uns tempos contaram-me uma anedota que era mais ou menos assim:

Uma mulher grávida acorda o marido a meio da noite e diz que está com um desejo incontrolável de comer carne de urubu. O marido, chocado, responde que na Europa não se comem dessas coisas, que é um desejo impraticável e pede-lhe que volte a adormecer. Meses mais tarde nasce um bebé mulatinho e, ao ser questionada sobre o assunto, a esposa diz "olha, estás lembrado de quando te pedi carne de urubu e não me deste? Agora o menino nasceu escurinho". O homem ficou a pensar naquilo e decidiu pedir ajuda à própria mãe acabando por lhe perguntar se ela achava possível ao que a mãe prontamente acedeu dizendo "sabes filho quando estava grávida de ti tive muita vontade de comer carne de boi e o teu pai sempre a ignorou. Foi por isso que nasceste corno!". 

 

Pronto, chega. Isto está a descambar. É de não dormir, desculpem. Prometo que vai melhorar.

 

 

16
Jul18

Grupos de mães no Facebook #12

 

penso higiénico.jpg

Ora bem, arranca mais uma semaninha que, para alguns, já será de férias (ou seja lá como for que se chamam aquelas semanas em que as pessoas com filhos pequenos não têm que comparecer aos respectivos empregos). Hoje isto vai ser um bocadinho diferente do habitual porque, em vez das habituais dúvidas e respectivas respostas, vou antes discorrer sobre mais um flagelo, desta feita em "forma visual", que assola os grupos de mães no Facebook  - e com tantos flagelos não sei como é que estes grupos ainda sobrevivem, acreditem. Se estão curiosas aviso-vos já que é melhor não criarem grandes expectativas porque o tema é básico, absolutamente primário e transversal a tudo o que é grupo onde convive muito mulherio. Senhoras e senhoras, para hoje "um workshop sobre fotografia".

 

Antes de continuar deixem-me só deixar um aviso à população masculina que pode estar a ler isto: vocês não vão querer ler o próximo parágrafo, acreditem. A vossa consideração pelo sexo feminino corre o risco de cair a pique e, portanto, aconselho-vos a engatar a marcha atrás e retroceder agora mesmo ou, se preferirem, a meter a quinta e saltar já para os dois parágrafos finais. Se decidirem prosseguir e nunca mais olharem para as mulheres da mesma forma não digam que não tiveram aviso prévio.

 

Agora que já estão os pontos colocados nos "i's" vamos lá então começar a sério. E não podia ser outro o início que não a porcaria das fotografias de fluídos internos que abundam nestes grupos, particularmente nos de grávidas. Não há um dia em que não haja uma alminha que não publique uma fotografia de umas cuequinhas cheias de uma porcaria qualquer nojenta e pergunte "ninas, acham que isto é o rolhão mucoso a sair?" ou, noutra versão, "este corrimento será normal ou terei uma infecção?". Epá, façam um favor ao mundo e deixem-se desta merdice, por favor. Aliás, destas merdices, porque o chamar "nina" é mais uma desgraça desta vida. Continuando... Ninguém, mas reparem bem que é mesmo ninguém, nem sequer o vosso marido/namorado, quer ver as coisas que vos saem do pipi. E as outras mulheres do grupo não fizeram mal a ninguém para serem castigadas desta maneira. Caramba, tenham lá piedade do mundo e guardem as vossas entranhas para vocês mesmas, sim? Esta semana então vi uma fotografia que era tudo de bom... Não querendo ser demasiado específica mas já sendo posso informar que uma alminha grávida de vinte e poucas semanas decidiu raspar a cuequinha com a unha e fotografar a boa da unhaca impregnada em corrimento sendo que acompanhava a fotografia com a pergunta "pelo cheiro não me parece nada mas pela consistência e cor o que é que vocês acham?". Epááááá. Eu honestamente acho que a pessoa tem uma infecção, só que não é genital, é cerebral. E também acho que os obstetras cobram 80€ por consulta por um bom motivo. A sério, muito a sério, não façam isso. Não fotografem. Não publiquem. Não perguntem. Têm dúvidas? Vão ao médico. Mas ploamordasanta guardem os vossos fluídos para vocês próprias. Ninguém mais os quer ver. Juro.

 

Pronto, parece que até fiquei mais aliviada só por escrever isto. Tenho aquela sensação que acabei de dar um contributo super positivo ao mundo ou sei lá. E vou agora dar o segundo contributo do dia sendo que este é demasiado sério e quase merecia uma publicação só para ele, num tom diferente desta crónica das Segundas-feiras mas... Já que a mãe imperfeita está com a "mão na massa", cá vai. Ora expliquem-me lá o que é que vos passa pela cabeça quando publicam fotografias dos vossos filhos nus com os genitais completamente expostos? Vocês por acaso conhecem pessoalmente todas as participantes no grupo? Têm a certeza que entre aquelas mil mulheres não existe um único perfil falso? Gostam de dar alpista a canários? E ração a pedófilos? Honestamente não me choca que partilhem fotografias dos filhos até porque, se olharmos para as estatíticas, facilmente percebemos que a maioria dos crimes perpetrados contra crianças são praticados por pessoas que lhes são próximas no dia-a-dia mas epá... Fotografias dos miúdos despidos? Com exposição clara da genitália? Não me lixem... Seja para mostrar a assadura do rabinho e pedir um conselho sobre pomadas, seja para fazer uma piadinha parva a verdade é que os grupos estão cheios de fotografias deste género. E a pergunta que se impõe é onde andam as moderadoras dos mesmos? É eliminar estas publicações o mais rapidamente possível, sempre e independentemente da circunstância. Crianças despidas na internet? Não, obrigada. Denunciem se for preciso mas não sejam coniventes. É bom para todos. Se não formos nós a zelar pela segurança dos nossos filhos, estamos à espera que seja quem a fazê-lo?

 

Enfim, para a semana prometo que voltamos a um registo mais leve e arejado, adequado ao modo silly season. Mas andava com estas duas aqui entaladas e tive que as soltar, desculpem lá qualquer coisinha. 

 

 

15
Jul18

Da perda gestacional

perda gestacional.jpg

 

Quando uma mulher aborta há sempre uma mãe que perde o filho sonhado. Se, no início, aqueles dois risquinhos têm o poder de fazer o mundo tremer também é verdade que, nesse mesmo instante, a ideia do filho começa a construir-se. E não importa se a mulher está grávida de seis, onze ou dezoito semanas quando descobre a gravidez. Porque logo ali, mesmo que com medo ou surpresa, há qualquer coisa que começa a mudar, que começa a crescer devagarinho. A semente é plantada e a mulher, que agora já é um bocadinho mãe, começa a sonhar com a flor.

 

Quando esse sonho é arrancado, o que menos importa é o número de dias que durou. Porque o sonho esteve lá, foi-lhe dado. Quando uma mãe perde um filho não pensa que perdeu um conjunto de células que estava a começar a diferenciar-se como algumas pessoas insistem em afirmar com a expressão "isso ainda não era nada". Para a mulher o "isso" era o começo do filho e, por essa razão, era demasiado para ser perdido. Não importa em que estadio de desenvolvimento esteja o sonho. Aquele sonho seria um dia um filho amado.

 

E nenhum filho é menos amado por ser diferente e, portanto, quando alguém diz que "a natureza sabe o que faz" a mulher só encolhe os ombros. A natureza não lhe traz consolo. A natureza também mata milhares de pessoas em terramotos, tsunamis e outras catástrofes naturais. A natureza que lhe permitiu engravidar também lhe roubou o filho sonhado e, por isso, a mulher que não pôde ser mãe, não acredita nem um bocadinho que ela saiba o que faça.

 

Muitas vezes depois de uma perda nem se respeita o luto e o tempo para o sofrimento e há quem comece logo a dizer "depois fazes outro, pronto". Não percebem que o outro, o novo, não substitui o primeiro porque já vai ser outro sonho, um sonho diferente, um sonho sonhado mais a medo. Não percebem que aquele que se perdeu, aquele que a mãe perdeu, já era único para ela e, mesmo sem ninguém dar por isso, já lhe tinha roubado uma parte do coração que não volta.

 

As pessoas falam, precisam de falar. A intenção é boa na maioria das vezes. Querem animar a mulher, dar-lhe esperança. Mas ela não precisa de frases feitas. Ela precisa de chorar, precisa de tempo para guardar o filho sonhado num cantinho para sempre. E talvez precise de um abraço e de um "estou aqui". Só isso, sem mais palavras. Só isso chega. O sonho sonhado, esse, nunca chegará.

 

 

*Dedicado à Inês

 

 

** Imagem retirada do Google

*** Texto originalmente publicado na página de Facebook "a mãe imperfeita" mas que decidi, também, deixar aqui.

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