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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

24
Set18

Grupos de mães no Facebook #20

Nesquik.jpg

 

Amigas, confesso que estou a temer pelo futuro das nossas crónicas de Segunda-feira. É que durante esta semana houve tanta zaragata por esses grupos fora que começo a acreditar que há sérios riscos das administradoras acabarem com eles e nos deixarem à mingua... E se por um lado há uma parte de mim que até acha alguma piada a ver o mulherio todo engalfinhado, por outro é sempre uma triste vergonha assistir àquele desfile de prints, acusações e boquinhas foleiras. Enfim, vamos mas é fazer uma corrente de energia para ver se as coisas se pacificam e aproveitar as perguntas (e respostas) parvas enquanto as há.

 

Esta semana, para variar um bocadinho, não são as perguntas que interessam (apesar de algumas serem bem parvas) mas sim as respostas que lhes foram dadas. Vá, vamos a isto que daqui a bocadinho é meia-noite e eu ainda tenho a roupa no estendal.

 

1. Olá meninas. Estou há dois anos a tentar engravidar sem sucesso. Nem eu nem o meu marido temos problemas de saúde. Há alguma coisa que possamos fazer?

 

RESPOSTA: Amiga, planta bastantes bananeiras, é óptimo; depois conta se deu certo.

 

Olhem, confesso que tive que ler esta resposta umas três ou quatro vezes porque pensei sempre que os meus olhinhos me estavam a trair. Mas às tantas percebi que não senhora, que a pessoa estava mesmo a mandar a outra plantar bananeiras. Comecei então a pensar que plantar bananeiras devia ser um código secreto para um tipo qualquer de pinanço todo hardcore, daqueles como os que o Grey faz com a Anastacia dele, e vá de meter "plantar bananeiras" no Google. Mas só me saíram merdas de jardinagem, acham normal? E agora aqui estou, aflita para deslindar este mistério. Será que as bananas aumentam a fertilidade? Será que a bananeira tem poderes que o comum mortal desconhece? Será que a pessoa queria escrever outra coisa e o corrector automático mudou tudo? Estou que nem posso com a dúvida.

 

 

2. Olá minhas queridas, já tenho dois rapazes de 6 e 2 anos e gostava de voltar a engravidar mas só se tiver a garantia de que desta vez é menina. Alguém conhece um método infalível?

 

RESPOSTA: O que tens que fazer é dar umas gotinhas da tua menstruação a beber ao teu marido, vais ver que é tiro e queda.

 

Ora bem, usando uma perspectiva de copo meio cheio é preciso considerar que pelo menos é um método económico e, se falhar, não meteu a pessoa em despesas desnecessárias. Falta-lhe é um bocadinho de higiene mas isto já se sabe que em tempos de guerra não se limpam armas. Sucede é que a mãe que fez a pergunta se veio a revelar uma atada e, ainda por cima, casada com um esquisitinho. Então não é que foi responder a dizer que duvidada que o marido aceitasse uma coisa dessas? A mãe desta nunca lhe deve ter ensinado que há coisas que os homens não precisam de saber. Aquilo três gotinhas dentro da caneca do leite bem disfarçadas com duas colheradas de Nesquik que ele nem sabia ao que ia. Ou isso ou um red velvet. Se for preciso eu mando a receita. Já a minha avó dizia que uma mulher atrapalhada é pior que um homem bêbado.

 

 

3. Bom dia meninas. Ao fim de quanto tempo tiveram relações depois do parto? Faz mal ter antes dos quarenta dias? 

 

RESPOSTA: Eu não me aguentei e fiz logo ao fim de oito dias.

 

Pffff, aposto que a coelha que deu esta resposta não levou com a costura nas baixezas. Eu, que ao pé desta pessoa sou praticamente frígida, confesso que a única relação que me apetecia ter oito dias depois do parto era com o gelo. Se eu nem me conseguia sentar sem sentir que os pontos me estavam a repuxar até às costas quanto mais pensar em andar metida nas papas miluvit. Há gente com muita sorte. Ou com muita falta de tacto. Venha de lá o diabo e escolha.

 

 

4. Olá mamãs do grupo. O meu filho com 20 meses já calça o 23. É de mim ou ele tem um pé mesmo grande? Quanto calçam os vossos bebés e quantos meses têm?

 

RESPOSTA: O meu tem 18 meses e calça o 26.

 

Em primeiro lugar e antes que me esqueça quero só dar os parabéns à mamã que colocou esta questão porque não é todos os dias que se vêem perguntas tão pertinentes em grupos de mães; obrigada pela coragem de trazer este tema tão interessante à discussão. E depois queria dizer à senhora da resposta que se esqueceu de um zero. Ela devia querer dizer que o filho tinha 180 meses e calçava o 26. Se calhar é daquelas que vai dizer a idade do filho em meses até ele se reformar. Só pode mesmo ser isso. Porque se forem mesmo 18 meses com um pé 26 o melhor é ligar já para o TLC porque, aposto um dedinho do meu pézinho 35, que eles vão querer fazer um reality show com o miúdo como figura principal. 

 

 

5. Mamãs, a minha filha está com uma amigdalite bacteriana e desde Segunda-feira que está a tomar antibiótico mas, mesmo assim, tem sido difícil controlar a febre. Estou a intercalar Ben-u-ron com Brufen mais ou menos de 6/6h. Alguém sabe se posso diminuir este intervalo de tempo?

 

RESPOSTA: Pare de dar antibiótico à sua filha, ela vai ficar com resistência e quando realmente precisar nenhum remédio lhe vai fazer efeito. Os médico enchem as crianças de químicos porque estão feitos com as empresas farmacêuticas e eu tenho provas do que estou a dizer. Se quiser entre em contacto comigo por mp.

 

Escusam de pensar que eu vou gozar com a pessoa que deu esta resposta porque se há coisa pela qual eu tenho realmente respeito é pela doença mental. Nenhum de nós está livre de começar a ouvir vozes dentro da cabeça, de acreditar que lhe andam a envenenar a comida ou de achar que os médicos receitaram antibióticos numa amigdalite bacteriana porque estão feitinhos com uma farmacêutica. Deixo um grande beijinho a esta mãe e votos de que nunca se esqueça de tomar o risperdal.

 

E pronto, são 23h55. Ainda é Segunda-feira.  

 

 

17
Set18

Grupos de mães no Facebook #19

 

mulher soldado.jpg

 

Esta semana, por haver muita gente nova na página, convém explicar o fundamento destas crónicas de Segunda-feira. Para quem já anda nisto há mais tempo o meu conselho é que saltem já para a parte "gira", para os outros peço que mantenham uma mente aberta. Ora então esta crónica surgiu devido à quantidade assustadora de perguntas sem fundamento que são praticamente "o chá da casa" de grande parte dos chamados "grupos de mães". O que eu faço semanalmente é um apanhado das questões mais estapafúrdias e depois respondo-lhes aqui na página. Mas há alguns princípios que gostaria de referir:

 

a)Todas as questões são reais e encontradas nos referidos grupos mas corrijo sempre o português e, algumas vezes, altero a forma como estão escritas para as tornar mais perceptíveis;

b) Nunca coloco prints e, por isso, estão absolutamente salvaguardadas as identidades das pessoas que colocam as questões bem como dos grupos onde foram publicadas;

c) A maioria das questões são-me enviadas por leitoras da página e peço novamente que tapem a fotografia, o nome das pessoas e o dos grupos antes de me enviarem os prints;

d) O objectivo desta crónica é satirizar situações e não pessoas. Eu própria sou um caos com duas pernas e, como todos sabem, gozo muito comigo mesma.

 

Pronto, colocados os pontos nos i's vamos embora ao que interessa. A nossa crónica desta semana, em modo mixórdia, começa em 3, 2, 1...

 

1. Olá mamãs, o meu bebé no berço dele dorme três horas seguidas mas na nossa cama acorda de hora em hora para mamar. Eu e o meu marido queremos muito fazer co-sleeping. Algum truque?

Se o puto dorme bem no berço e mal na vossa cama juro que nem percebo a questão porque a solução é óbvia: se querem mesmo fazer co-sleeping deitem-se vocês no berço dele. Agora a sério, o vosso puto é o sonho de todas as mães. Dorme três horas, mama, arrota, volta ao berço e dorme mais três. É de livro. É de sonhos. Deus dá mesmo nozes a quem não tem dentes. Metade das mães de bebés recém-nascidos deste país está a espumar com inveja e vocês, em vez de aproveitarem, estão a "arranjar problema no final de semana" para citar o grande poeta Anselmo Ralph. Façam co-sleeping um com o outro e deixem-se mas é de merdas. Eu estou aqui de directa porque o puto dormiu zero e quanto mais leio esta pergunta mais vontade tenho de vos aplicar um rotativo na traqueia.

 

2. Mamãs, esta semana tenho sentido o meu bebé mexer no ânus. Estou de trinta e cinco semanas. Mais mamãs assim?

Amiga, anda cá ao pé de mim que eu vou explicar-te assim com calma... O que tu sentes mexer no ânus não é o teu bebé. O que tu sentes mexer no ânus é o senhor castanho e resolves isso na boa com dois microlax e meia hora de sanita. É que se me disseres que sentes o teu bebé nas costelas eu sou a primeira a ser solidária, sei bem o que custa respirar fundo com um mini Messi a pontapear a nossa grelha costal mas o ânus não querida, ao ânus os putos não chegam. Há realmente uma coisa que chega ao ânus na gravidez e no parto mas o nome é hemorróida, almorróida para os amigos, e é uma grandessíssima merda. Por falar em merda... Vai lá resolver isso vá. 

 

3. Olá meninas, li agora que a água do Vimeiro é boa para as cólicas dos bebés. A minha pergunta é se eles depois não se queixam do gás.

Acho que se lhes deres junto com o cafézinho é na boa, toda a gente sabe que café e água com gás são uma combinação clássica que não tem como dar errado. Tem é cuidado com a temperatura da chávena que diz que os lábios dos bebés são assim para o sensível. E não vás na conversa se o puto também te pedir um pastel de nata que isso já é capaz de lhe dar destempero. Oh mulher, é Vimeiro lisa porra.

 

4. Olá a todas. É verdade que se bebermos água pela garrafa durante a gravidez o bebé nasce com o lábio rachado? Só hoje me avisaram disto e estou tão preocupada...

Um dia as pessoas vão descobrir a ciência e deixar de acreditar nas cartas da Maria Helena mas, enquanto isso não acontece, continuamos com estes números. Oh senhora, eu bebi litros de água pela garrafa nas duas gravidezes e nenhum dos putos nasceu com lábio leporino/fenda palatina. Nem os meus nem os dos outros 99% das grávidas que passam 40 semanas com a garrafa de água atrás. Deixa-te lá de preocupações que juro, mas juro mesmo, que se o puto sair com o "lábio rachado" a culpa não foi das garrafas de água do Pingo Doce. Nem tua. Também juro que a culpa não foi tua.

 

5. Meninas, a minha questão é um bocadinho pessoal. A minha bebé de seis meses dorme connosco na cama mas ultimamente o meu marido tem andado com um grande problema de gases e é um mau cheiro de tal ordem que até tenho medo que prejudique a menina. Acham que pode acontecer? 

Hahahahahahahahahah. Fonix, mil vezes fonix. Olha, agora a sério e sem risota, eu acho que até lhe faz bem para enrijar, repara que não é qualquer um que se pode gabar de conseguir dormir num ambiente inóspito; aliás, a maior parte das pessoas começava logo com as esquisitices dos incómodos e não sei quê. A verdade é que a gente até nem sabe quando é que rebenta para aí uma guerra qualquer e, se acontecer, a tua filha já leva vantagem sobre os outros putos todos: em primeiro lugar está habituada ao barulho da artilharia, em segundo toda a gente sabe que não há cá banhos nos abrigos de guerra e quando os outros andarem todos de nariz franzido a tua vai verdadeiramente sentir-se em casa. Deixa os puns do teu marido em paz que ele está a criar uma sobrevivente.

 

Pronto, esta semana foi o que deu que tenho tanto sono que já cabeceio o ar. E para continuar a relembrar os velhos tempos despeço-me com um "não percam o próximo episódio porque nós também não".

 

* Imagem retirada do Google

 

 

 

 

10
Set18

Grupos de mães no Facebook #18

corte-cordao-umbilical.jpg

 

Começa mais uma semana e, com ela, mais uma série de questões super pertinentes vai nascer por esses grupos de Facebook. E a Mãe Imperfeita aqui continua, de pedra e cal, a tentar dar resposta a estes autênticos dilemas da humanidade, qual Maria Helena dos blogues (mas sem a parte das cartas e da venda dos santinhos), qual Alexandra Solnado das mães, qual Gustavo Santos da sabedoria feminina. Nunca temam mães deste país; nunca temam porque a Mãe Imperfeita descansa mas não dorme (literalmente) e não vai deixar passar nenhuma dúvida realmente importante sem lhe oferecer a tão merecida resposta. Esta semana com quatro questões fracturantes sobre temas variados que vão ser escrutinadas ao pormenor. E a viagem começa agora.

 

1. Olá meninas, hoje venho aqui para desabafar. Acreditam que a minha sogra (que vive perto de nós porque os meus pais estão no Algarve) já começou com as indirectas do tipo que já tem os filhos criados não está para criar os dos outros para eles andarem na boa vida? Já vão três ou quatro vezes com boquinhas destas e, o mais parvo, é que só ainda ficou três vezes com o meu Santiago. Vocês no meu lugar faziam o quê?

Ai caraças, devo confessar que adoro um bom desabafo. Quando leio que vem aí uma partilha deste tipo até o coração me dispara e os pelinhos do braço se eriçam. Confesso, no entanto, que quando li esta publicação assim à primeira vista não lhe achei nada de especial até que se me bateram os olhos no nome do grupo em questão. E o que é que indicava o nome desse grupo? A data em que teriam nascido estes bebés. Vai daí, feita ratazana, pergunto "quanto tempo tem o teu Santiago"?, e a pessoa responde "18 dias". E pronto, desapareci da publicação que deve ser o mesmo que a sogra desta alminha tem vontade de fazer. Se com dezoito dias o puto já lá ficou três vezes (os pais foram a dois jantares e um casamento que a mãe explicou nos comentários) quando tiver seis meses mete as fraldas e as chupetas num saco do Pingo Doce e muda-se para lá de vez. A sério que não entendo esta malta. Que ela depois de parir esteja fresca e fofa como o pão da Bimbo, cheia de vontade de andar no laréu, eu até posso entender. Mas macacos me mordam se não entendo também a sogra que se vê a braços com um bebé de dias, que acorda mil vezes durante a noite, enquanto o filho e a nora vão jantar sossegadinhos e dar um pezinho de dança. Aposto que a desgraçada da mulher já está a ver a vidinha toda de recuas que nem a novela da TVI consegue ver descansada e, páginas tantas, já nem sabe quem é amantizado com quem. Só vos digo que acho que ela até tem muita sorte por ter uma sogra que só lhe manda boquinhas. Eu mandava as boquinhas e o puto, tudo numa caixa daquelas de correio verde, enrolados em papel de bolhinhas daquelas que se rebentam quando padecemos dos nervos, com um escrito a dizer "impossível devolver ao remetente" (ou, se calhar, escrevia antes "quem o fez que o ature", não sei, era esperar pela inspiração do momento).

 

2. Olá a todas as mamãs deste grupinho. A minha filha de dez meses, super faladora, já vai construindo frases com cerca de três ou quatro palavras. Mais alguém por aí assim?

Assim como? Mentirosas? Deve haver, duvido é que se acusem. Vá, agora a sério, estas cabras passivo-agressivas, cheias de mamãs e grupinhos e fofinhas são as que mais me enojam nesta coisa da maternidade. São estas tipas que, muito simpaticamente, vêm gabar os filhos, seja com factos verdadeiros ou inventados, ao mesmo tempo que esmagam a auto-estima das outras todas porque claramente o filhinho delas mija mais longe do que os outros atrasados todos que ainda pingam para os pés. E estas tipas irritam-me tanto que costumo mesmo responder-lhes com ironia que elas, das duas uma, ou fingem não perceber ou encarnam antes na padroeira das virgens ofendidas. A verdade é que acho sempre que quem faz publicações deste tipo é mal-amada, em casa e na vida em geral, e isso explica a necessidade de vir caçar elogios para a internet. Se é possível que a criança seja realmente precoce na fala e construa frases com dez meses? Se calhar é. Também é possível que a mãe precise de peso em cima a ver se lhe passa o complexo de inferioridade. Gente desta? Lá longe se faz favor.

 

3. Olá, acreditam que se o bebé nascer com o cordão enrolado no pescoço tem que se chamar José ou acham que é só uma crença antiga sem fundamento?

As outras não sei mas eu acredito e muito. Aliás, o meu mais velho é Pedro porque tentaram três ventosas e uns fórceps sem sucesso e o mais novo João porque tive diabetes gestacional e foi preciso dar insulina. Tenho um primo que é Tiago porque "nasceu de rabo" e uma Inês porque tem um sinal no braço. Para ser sincera nem percebo essa coisa de escolher nomes logo cedo que isto as coisas bem feitas é esperar que a criança nasça, ver as avarias que traz e depois ir então perguntar a um antigo como é que a devemos chamar. Quem não faz assim tem sete anos de azar como as pessoas que quebram as correntes de amizade online e as que não escrevem amén na fotografia do menino leproso.

 

4. Tenho um filho de dois meses e hoje tive relações e o meu namorado veio-se todo dentro de mim. É possível engravidar?

Porra, quando uma pessoa pensa que já viu tudo chega alguém e escreve "veio-se todo". Estou sem saber se ria se chore mas, uma coisa é certa, da vergonha alheia já não me livro. Seja pelo português de beira de estrada, seja pela ignorância que demonstra esta pergunta tem tudo para ser maravilhosa. Como é que alguém, em pleno século XXI, ainda tem dúvidas nisto é uma coisa que não me entra no circuito. Estamos a falar de mulheres que já pariram. Será que estava inconsciente quando fez o primeiro e acha que aquilo foi assim uma espécie de obra do acaso? Deus ajude a geração que vai ouvir a história do pai plantar a sementinha na mãe contada por esta gente, se calhar o melhor é voltarmos todos à cena das cegonhas e acabou, não há como errar. Veio-se todo. Ela escreveu mesmo "veio-se todo". Ainda não estou em mim.

 

Pronto, se calhar nota-se que fiquei assim meio irritada depois da segunda questão, não é? Têm que aguentar. O meu marido também aguenta. E ele é todos os dias, vocês é só às Segundas. 

 

*Imagem roubada do Google

 

 

 

07
Set18

As cinco perguntas parvas que fazem sobre os surdos

* Texto de Rui Miguel Pinheiro
 
** O modelo da fotografia é o meu filho Pedro há uns bons mesinhos atrás
 

IMG_20180122_183324.jpg

 

 
A pedido de muitas famílias (na realidade, só foi só uma. Bem, para ser sincero, nem foi bem uma família, mas um membro de família. Mais precisamente uma Mãe. E nem sequer é das perfeitas) seguem-se algumas desmistificações que eu, como surdo (e se calhar, por tabela, muitos outros surdos) gostaria de ajudar a esclarecer.
 
 
 
1. Mas há mesmo uma Língua Gestual Portuguesa (LGP)?
 
O título deste ponto até era para ser se a língua gestual não era internacional e depois eu dizia: não, não é igual em todo o mundo, existem várias línguas, é praticamente um cada-país-tem-a-sua-e-alguns-por-acaso-usam-a-mesma, como acontece, aliás, com as línguas orais.
 
Mas assim só preciso responder que "sim" à pergunta deste ponto e tudo o resto se torna óbvio, para bom entendedor: as línguas, afinal, não são só faladas; também podem ser gestuadas. E é língua e não linguagem, como também se costuma erradamente dizer, dado que possuem gramáticas próprias, histórias e enraizamentos sociais que uma mera linguagem não tem.
 
E sim, há mesmo pessoas que não acreditam que uma língua como a LGP seja uma língua de verdade. Quando estudava no IST, conheci uma professora catedrática que negava veemente que a LGP fosse uma língua. Como, entretanto, também conheci um informático experiente que acredita que a Terra é plana, até fiquei descansado. Afinal, a ignorância (e a teimosia na mesma) não é um exclusivo dos incultos.
 
 
2. Um surdo é uma pessoa normal?
 
Esta é a pergunta que muitos pensam (ouvintes e surdos!), mas não dizem. Então aqui vai: não, claro que não é normal. Toda a gente tem uma perspetiva através da qual é anormal: até mesmo uma pessoa perfeita seria anormal, porque todos somos imperfeitos de alguma maneira. Ironicamente, ser-se completamente normal seria uma perfeita anormalidade.
 
Anormal é quando algo é diferente da norma / maioria, num dado contexto. Então, por definição, um ouvinte numa sala cheia de surdos é sem dúvida o anormal do momento. É tudo uma questão de estar no local errado, à hora errada, coisa que os surdos são pródigos em fazer, dado que muitos deambulam nesse tal mundo exterior onde o normal é ouvir e, por consequência, a comunicação sonora abunda.
 
Não vale a pena negar que existe uma diferença e insistir que "fulano tal é surdo mas é uma pessoa perfeitamente normal!". Não, parem, por favor, de varrer a surdez para debaixo do tapete e fingir que ela não existe. Apesar de ser invisível, ela está lá e, portanto, fulano tal é surdo e como tal vão acontecer situações em que precisará de "N" coisas num formato acessível (em LGP, por escrito) e/ou próteses auditivas e/ou implante coclear, o que seja.
 
É tudo uma questão de, quando acontecer algum tipo de barreira comunicativa, agirmos como parte da solução e não do problema.
 
 
3. Afinal ouves ou quê?
 
Ou quê. Eis uma questão que me era colocada quando eu ainda usava prótese auditiva, antes do resíduo que ainda tinha bater no fundo e já não dar mais para amplificar o som. Alguém gritava "RUIII!!" e eu virava a cara. E dizia-me: "aaah! Mas afinal ouves ou quê?". E eu respondia que me tinha parecido ouvir um burro a zurrar e assustei-me. Duas vezes: uma por ter ouvido um zurro e a segunda por constatar que era mesmo um burro (metafórico).
 
Há uma longa dissertação que poderia fazer aqui sobre perda de audição condutiva vs neurossensorial, mas vou fazer um resumo simplista às três chapadas: condutiva é quando o som chega mais baixo (chap!), neurossensorial é quando o som é deturpado (chap!) e mista são os dois ao mesmo tempo (chap!). Então, para quem tem surdez neurossensorial (ou mista), o som que chega ao cérebro, por muito que possa ser amplificado ou ajustado pelas maravilhas tecnológicas que vão aparecendo na área, tende a chegar torto (ainda que chegue um "som").
 
E não, não me traumatizei na infância por o meu nome aparentar ser Hiiii-óóó.
 
 
4. Aaaah! És surdo mas falas??
 
Apesar de, por vezes, pretensos profissionais da escrita que por acaso arranjam emprego em jornais e revistas teoricamente respeitáveis ainda escreverem "surdo-mudo", ser-se surdo é, por definição, não ouvir. E, apesar de ser obviamente mais fácil falar corretamente quando se ouve (ou "adquirir a fala" como se usa no jargão profissional), a surdez não implica um atrofio das cordas vocais, por isso, sim, eu não só falo, como grito, canto e num dia bom até faço beatbox. E esta hem?
 
Portanto, um surdo não é mudo, embora muitas pessoas digam à porta fechada que, no meu caso, se calhar até gostariam que fosse.
 
 
5. Para quê isso dos surdos se juntarem?
 
Porque sim! Arre c'a chato. Deixa-nos juntar em paz!
 
Esta acabou por ser a pergunta com a resposta mais séria e comprida e muito ficou por dizer.
 
Conversei um pouco com quem me fez esta pergunta e percebi que, na perspetiva de alguns ouvintes, um surdo é suposto tentar "chegar" o mais perto possível de um ouvinte, ou seja, ler nos lábios, aprender a falar (mas depois... ver pergunta 4) e integrar-se na sociedade. Nessa ótica, agruparem-se, onde a comunicação gestual predomina, é visto como o percurso feito ao contrário. Porque quererá o surdo dar-se com outros surdos de propósito, em vez de cultivar as relações do dia a dia na família, no emprego, na vizinhança? Não são estas pessoas mais importantes que embirros aleatórios que por acaso também são surdas?
 
É uma questão polémica por dois motivos. Por um lado, muitos surdos consideram a Comunidade Surda como uma segunda família (por vezes primeira) dado que encontram aqui um apoio, compreensão e integração naturais que não costumam ter "lá fora"; por outro, a pergunta expõe um preconceito da maioria contra uma minoria que é diferente e que teima e não se integrar.
 
Num ambiente "hostil" e estrangeiro, as pessoas da mesma língua tendem a concentrar-se. Vejam as chinatowns, os bairros muçulmanos, as comunidades ciganas. Até mesmo comunidades portuguesas em várias cidades do mundo! E as comunidades maioritárias nesses locais indignam-se perante essas agremiações: porque é que os chineses se juntam assim? E os muçulmanos? E os ciganos? Porque é que não se integram plenamente na sociedade? Notam o paralelo?
 
Com os surdos, acontece um pouco a mesma coisa: sendo muitos possuidores de uma língua própria (no nosso caso, a LGP), experienciando o mesmo tipo de dificuldades na sociedade maioritária (o que propicia a partilha e interajuda) e sentindo-se muito mais confortáveis comunicando numa língua que dominam e com a qual não sentem barreiras comunicativas, parece óbvio que combinem encontros entre si para convívio imerso nessa língua e acabem por fazer disso parte do seu dia-a-dia.
 
Por vezes acontecem conflitos entre o surdo e famílias ouvintes, por estas sentirem que estão a ser trocadas por outra "família". Dado que este texto está a ser escrito para uma página onde estão muitas mamãs (e alguns papás), acredito ser relevante falar um pouco disto. Como devem perceber olhando à volta (e não apenas para séries de televisão norte-americanas) as famílias portuguesas de maioria ouvinte, em geral, não aprendem a LGP, pelo que, se o surdo tiver uma perda auditiva que não lhe permita acompanhar fluidamente conversas faladas, vai desinteressar-se das reuniões familiares, aguentando estoicamente e/ou entretendo-se sozinho (ver televisão, ler um livro, mexer no telemóvel). Eventualmente, irá passar mais tempo em convívios com outros surdos que com a família, onde se sinta bem. E o problema estará nas famílias, não no surdo.
 
Queixarem-se que o surdo é que se isola e não faz um esforço por acompanhar tudo é injusto e só reforça o afastamento. Nem sempre a reabilitação auditiva permite a compreensão plena da fala. Ler nos lábios cansa muito mais do que parece. É um esforço contínuo que requer muita concentração. E torna-se mais complicado com o aumento das pessoas presentes, pois temos de estar a olhar a boca que vai falar, antes que comece! E, como cada pessoa mexe os lábios de forma ligeiramente diferente, é preciso um período de adaptação à boca de cada pessoa nova que conhecemos, até sermos capazes de perceber tudo. Isto cansa. Cansa muito. Às vezes é tão impossível que já nem tentamos. E quando as coisas chegam a este ponto, deixam de ser gratificantes e tendemos a afastar-nos. Por muito que gostemos das pessoas. Já para não falar da sensação que por vezes nos fica que parece que querem à toda força que sejamos como os ouvintes, que ouçamos, do que aceitarem-nos como somos, não só às nossas capacidades e competências, mas também limitações.
 
Porque a vida é para ser vivida dentro da nossa capacidade de sermos felizes, não na dos outros.
 
 
 
Eram para ser 10 mas como escrevi muito só em 5, ficaram cinco! Todavia, para não ser injusto, se tiverem mais perguntas parvas, é só dizer; quando estas chegarem às 5 posso fazer uma parte 2.
 
 
*O Rui escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico
03
Set18

Grupos de mães no Facebook #17

vampiro.jpg

 

 

E então esse regresso ao trabalho, que tal? Ora pois que para vos alegrar o dia, ou para o estragar de vez, voltamos à nossa rúbrica das Segundas-feiras. Hoje o tema são as crenças populares e antes de avançarmos deixem-me dizer-vos que tenho o máximo respeito pela sabedoria popular e até acho uma certa piada às mezinhas e superstições. O que acontece é que perco esse respeito quando as ditas crenças saem da boca, ou neste caso das mãos, de mulheres de trinta anos com o Google à disposição mas que ficam com o discernimento completamente toldado quando ouvem falar em benzeduras, luas e água benta. Dada esta explicação, vamos a elas que se faz tarde.

 

1. Olá a todas, queria saber a vossa opinião sobre uma situação para ver se me podem ajudar. Então é assim, esta noite esqueci-me da roupinha da A. no estendal e a menina ainda não foi entregue à lua. Acham que devo lavar a roupa toda outra vez?

Ó mulher, tu tem juízo. Sabes, por acaso, quanto ganha o CEO da EDP? Eu por acaso também não sei e agora não me apetece ir pesquisar mas acredita que ganha mais num dia do que tu no mês inteiro. Posto isto deixa-te lá de ideias de merda de fazer mais máquinas com roupa que já está lavada que aquele povo não precisa da tua esmola para nada. A não ser que vás lavar a roupa ao tanque acho um disparate pegado. E mesmo no tanque é um gastador de água que não se justifica que diz que a lua é uma rapariga pacífica e que nunca fez mal a ninguém. Aliás, calculo que saibas disso já que até lhe queres entregar a tua filha e tudo. Depois conta-me se ela é ajeitada com os miúdos porque uma ama nocturna, se não levar caro, é coisa para dar jeito cá em casa que andamos todos rebentadinhos. Vá, agora não percas mais tempo e vai mas é passar a roupa a ferro que parece-me que essa conversada da lua foi só uma desculpa para adiares essa parte, pareces eu quando preciso de preparar formações em serviço, tudo me serve de distracção, desde a mosca a zumbir ao cãozinho a ladrar.

 

2. Meninas, vocês levam os vossos bebés à rua de noite sem serem baptizados?

Porra, claro que não, estás parva ou quê? Toda a gente sabe que no baptismo eles são lavadinhos com água benta e é do conhecimento geral que a água benta espanta os vampiros. Ora, sabendo nós que os vampiros só circulam de noite, é fácil deduzir que se não estiverem baptizados se tornam uma presa fácil para essas criaturas malignas de dentes afiados. Eu cá prefiro não arriscar e opto pela segurança do lar. E se por algum motivo de força maior tiver mesmo que sair levo sempre três dentes de alho, uma cruz de madeira e uma estaca de prata, não vá o diabo tecê-las. Por outro lado é preciso ver que há vampiros e vampiros. Conheces o Damon do "The vampire diaries"? Pois... Nesse caso é capaz de não ser assim lá muito criminoso usar a criancinha como isca.

 

3. Boa noite mamãs, como não sabia que fazia mal fui cortar o cabelinho ao meu menino antes dele ter um ano. Agora toda a gente me diz que vai atrasar a fala. Conhecem alguma oração ou assim que possa usar para remediar isto?

Ai pá, ainda bem que pergunta, sei uma oração mesmo, mesmo boa para isso. É assim:

 

"Ó lua, ó luar,

Mete na cabeça desta poucochinha

Que os atrasos na fala

São histórias da Carochinha.

Ó lua, ó luar,

Ajuda as pessoas a perceber

Que certas publicações

É melhor nem as fazer."

 

Pronto, é rezar isto três vezes, com um cinto de espinhos colocado e de joelhos em cima de grão-de-bico cru e fica tudo remediado. Não vai haver atrasos na fala para o seu menino. Escusa de agradecer que foi pobrezinho mas de coração que isto a gente anda aqui é para se ajudar umas às outras.

 

4. Mamãs, comecei com uma dor de dentes terrível e a esta hora já não consigo ir a um dentista e não tenho nada aqui que possa tomar. Estava a pensar que talvez a dor aliviasse se usasse o colar de âmbar da minha filha (como pulseira claro). Já alguma de vocês experimentou?

És mãe, tens supositórios de Ben-u-ron em casa de certeza, mete quatro e vai-te deitar mulher. Agora a sério, não vou aqui discutir os benefícios dessas contas mágicas, que o professor Mário Cordeiro já o fez no jornal "i" e eu jamais o faria melhor, mas epá... A sério que estás a ponderar isso para a tua dor de dentes? Fonix, parem lá o mundo que eu saio aqui. Das duas uma, ou a dor de dentes é tão fraquinha que te permite estar a pensar idiotices ou é tão forte que te fritou a molécula. Nenhuma das opções é especialmente abonatória. Agora pensa...

 

E pronto, o bruxedo fica por aqui. Para a semana há mais.

 

 

*Imagem roubada do Google