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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

13
Mar18

Urgência pediátrica - as tribos de pais

 

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Suponho que nenhum pai goste das visitas que todos somos forçados a fazer aos serviços de urgência pediátrica. O motivo óbvio é que se lá estamos é porque temos os putos doentes e isso é sempre uma treta. Ainda assim, depois de lá estarmos, tenho para mim que o melhor é ocuparmos a cabeça com qualquer coisa que nos permita ignorar os minutos intermináveis que passam entre a triagem e a chamada para observação médica. Na última vez que lá estive decidi ocupar o cérebro a analisar os outros pais e facilmente consegui agrupá-los em meia-dúzia de categorias básicas:

 

Os pais infecciologistas - Este grupo é composto pelos pais que se sentam numa ponta da sala e ficam super sérios a estudar atentamente os filhos dos outros e a tentar descobrir quais dos putos estão carregados de doenças altamente contagiosas que podem deixar os putos deles ainda piores. Os olhinhos deles vão varrendo tudo e muito discretamente tentam mover as suas crias para longe de todos os putos que lhes parecem poder ter varicela, escarlatina ou uma daquelas viroses que os deixa com diarreia e vómitos durante uma semana. Os filhos destes pais não interagem com outras crianças e, muitas vezes, são contidos no colo dos progenitores. Só não usam máscara porque têm vergonha e medo de passar pelos paranóicos que efectivamente são.

 

Os pais envergonhados - Estes pais são as típicas vítimas da capacidade magnífica que os putos têm de nos fazer passar por mentirosos. Explicando melhor, estão a ver aqueles putos que estão em recusa alimentar completa há uma semana e não abrem a boca a absolutamente nada levando os pais a um desespero tal que marcham com eles para o hospital? Pronto, habitualmente são estes os putos que quando chegam à triagem comem em trinta segundos o iogurte e o pacote de bolachas que lhes é oferecido e ficam a pedir mais no fim. Os pais destas crianças são vítimas dos próprios filhos mas, caso decidam abandonar o barco e marchar para casa, podem ter a certeza que a boca dos putos se vai cerrar assim que abandonarem a sala de espera e, por isso, resignam-se à vergonha e ali ficam, a amaldiçoar baixinho as crias. Habitualmente ostentam um sorriso amarelo no rosto e têm as mãos cruzadas sobre o peito.

 

Os pais impacientes - Ora neste grupo encontramos tipicamente homens que, sentados numa cadeira, olham para o relógio de dois em dois minutos na esperança nem sei bem de quê. Na cara deles pode ler-se claramente "cheguei aqui com o puto às quatro da tarde, daqui a quinze minutos começa o futebol e não há meio de me despacharem". Geralmente apresentam uma espécie de síndrome das pernas inquietas que vão tremendo na cadeira enquanto bufam para o ar. Não comunicam com os outros pais e, de vez em quando, lançam olhares ameaçadores aos próprios filhos que, pensam eles, se estivessem assim tão doentes não andavam ali a brincar de certeza.

 

Os pais dramáticos - Pois que pode haver dois putos com 42ºC de febre, um de perna partida e outro aflito para respirar mas o filho deles, com aquela conjuntivite, está claramente muito mais doente do que qualquer um dos outros e, portanto, a cor verde da pulseira que lhe atribuiram na triagem é absolutamente incompreensível. Este grupo de pais geralmente tem olhos de falcão e mal saímos com os nossos putos da triagem a vista deles crava-se no pulso dos nossos filhos para ver qual a cor da pulseira que receberam. Se por acaso a nossa pulseira é prioritária comparativamente à dos miúdos deles lançam para o ar um nada discreto "não consigo perceber". Habitualmente ostentam aquela expressão de "não sou eu quem está contra o mundo, é o mundo que está contra mim e contra o meu filho".

 

Os pais relações públicas - Estão a ver aquela noite em que o vosso filho dormiu zero porque teve sempre febre e, cereja no topo, ainda vomitou três vezes a cama toda? Estão a ver os vossos cansaço e mau-humor no dia seguinte? Pronto, estes pais não estão e, por isso, vão tentar socializar convosco como se a sala de espera fosse um qualquer café de bairro. É natural que vos perguntem a idade dos putos, o que vos levou à urgência, de onde são, com que idade os putos começaram a andar e se têm o plano nacional de vacinação em dia. É fácil identificar estes pais porque estão geralmente a encurralar alguma vítima que se limita a responder ao que lhe é perguntado na esperança de que a conversa termine por ali. Só que nunca termina. Os pais que são vítimas deste grupo geralmente suspiram de alívio (ainda mais do que os outros) quando o nome dos seus filhos soa no altifalante.

 

Os pais call center - Estes são os pais que conseguem passar as três horas de espera em constantes conversações telefónicas. Primeiro telefona a avó Irene a perguntar pelo menino, de seguida a tia Teresa, posteriormente o avô Joaquim e assim sucessivamente até chegar a um ponto em que os outros pais presentes já sabem mais sobre a doença daquele puto do que sobre a do seu próprio filho. Às vezes estes pais aparentam estar um bocadinho envergonhados mas, mesmo assim, há uma força qualquer que os impele a manter o som no telemóvel e a atender todas as chamadas de familiares preocupados com a criança. Habitualmente estão de pé, num dos cantos da sala.

 

Os pais redes sociais - Adoro este grupo, confesso mas, na verdade, nem sei bem do que gosto mais. Por um lado há todo o trabalho de tirar uma selfie com os putos ao colo e um ar de exaustão. Podem ter que fazer várias tentativas (o que tem como aspecto positivo o facto dos miúdos terem um ar cada vez mais cansado e doente) até atingirem a perfeição desejada. Depois há sempre a fotografia da pulseirinha. A legenda da fotografia é invariavelmente qualquer coisa como "a desesperar há duas horas #quemmederaquefosseeu #amordamãe #tudoporti #coraçãoforadopeito". Depois da publicação feita deixam os putos brincar e ficam a responder aos comentários dos amigos preocupados que querem saber afinal o que é que se passa. É uma forma de passar o tempo quase tão boa como outra qualquer (#sóquenão).

 

 

E pronto, assim de repente acho que foram estes os principais tipos de pais que encontrei na minha última visita. Se conhecerem mais grupos façam o favor de partilhar aqui ou no Facebook. E para o caso de quererem saber, o meu grupo é o primeiro (ainda que o puto já me tenha feito também integrar o segundo). 

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