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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

23
Abr18

A carta do teu bebé

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Olá mamã,

 

Sei que os últimos tempos têm sido estranhos para ti. Na verdade, apesar de já me sentires e passares horas a imaginar-me, a verdade é que ainda não me conheces. Neste momento sou uma espécie de segredo bem guardado e sinto que sou praticamente só teu (apesar de, de vez em quando, deixar que o papá sinta um dos meus pontapés). Sei bem que vim mudar a tua vida e que, desde o momento em que soubeste que vinha a caminho, nunca mais nada foi igual. Sabes que senti que choraste no dia em que ouviste o meu coraçãozinho pela primeira vez? Ainda nunca te disse mas eu também me emociono sempre a ouvir o teu, é o som que me acompanha aqui dentro, aquele "pum, pum, pum" que me faz sentir protegido e amado.

 

Os nossos primeiros meses foram difíceis e peço-te desculpa por isso. Todos os dias quando acordavas sentias uns enjoos terríveis, não era? Sei disso porque conseguia perceber o esforço que fazias para te alimentar e, assim, permitires-me crescer e desenvolver de forma simples e feliz. Conheço os sacrifícios que tens feito por mim desde o primeiro minuto e sei que vais continuar a fazê-los pela vida toda, mesmo depois de eu nascer. Posso sentir o teu coração bater mais rápido sempre que é dia de me espreitarem através da ecografia. Às vezes gostava de te poder acalmar e dizer que está tudo bem mas, como ainda não consigo, vou-te dando uns pequenos pontapés para que saibas que estou bem, seguro e feliz. Desculpa quando, sem querer, acabo por te acertar numa costela ou apertar muito a bexiga mas o espaço aqui dentro é pouco e eu já gosto muito de brincar.

 

Tenho sentido, à medida que os dias vão passando, que andas um bocadinho mais ansiosa e com medo mas quero dizer-te que não precisas sentir-te assim. Quando eu sair e olhares para mim, mesmo que não fiques logo apaixonada ao primeiro olhar, vais perceber que uma parte de ti foi conquistada para sempre e, à medida que os dias forem passando, o teu amor vai crescer tanto que um dia te apercebes que já não existem palavras suficientes para o descrever. Não olhes para as outras mães com medo de que não consigas ser tão boa como elas. Sabes mamã, tenho a certeza que vais ser muito melhor. É verdade que vais andar cansada, é verdade que vou precisar de me alimentar de noite, que vou ter cólicas e que os teus dias se vão quase perder entre leite, arrotos, fraldas e banhinhos mas um dia vais ter saudades, sabias? Um dia vais lembrar-te com saudade do meu cheirinho e talvez seja nessa altura que me decidas dar um mano.

 

Não te preocupes querida mamã, temos todo o tempo do mundo para nos adaptarmos um ao outro. Não vai ser fácil. A tua vida vai mudar (ainda mais do que já mudou) e eu tenho um mundo inteiro totalmente novo para conhecer. É natural que eu às vezes fique perdido e irritado e que tu te sintas triste e cansada mas acho que isso faz tudo parte da missão que temos pela frente. E não te esqueças que temos sempre a ajuda do papá.

 

Hoje durante a noite pude ver um bocadinho dos teus sonhos e queria dizer-te que não precisas de te preocupar tanto. É verdade que quando eu sair daqui vai ser doloroso para os dois. Tu vais ter dores físicas para me colocar no mundo e eu vou sofrer para sair e para poder respirar pela primeira vez. Mas no final querida mamã, quando me deres o primeiro abraço e o primeiro beijinho, vais ver que valeu tudo a pena. Cada contracção, cada grito e cada dor foram apenas um passinho na maratona que vamos ter pela frente e que será a mais feliz e enriquecedora das nossas vidas.

 

Mãe, eu ainda não te conheço e já gosto tanto de ti. Não tenhas medo mamã querida, vai correr tudo bem. 

 

(Esta é a primeira carta do conjunto de cinco que decidi escrever em comemoração do Dia da Mãe. As cartas acompanharão a relação mãe-filho ao longo de todo o ciclo vital e, por isso, se a primeira é "escrita" ainda in utero, a segunda será escrita na infância, a terceira na adolescência e a quarta na idade adulta. A última carta desta série não será escrita por mim mas sim pelo "Pai Imperfeito" e será publicada no Domingo, 6 de Maio, como forma de fechar este ciclo de homenagem a todas as mães. Desculpem se serão textos mais lamechas que o habitual mas acho que, por muito duronas que sejamos, todas temos um coração cá dentro que amoleceu muito com a chegada da maior de todas as surpresas: o(s) nosso(s) filho(s)).

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