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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

17
Mai18

A mãe ao final do dia

 

mãe cansada.jpg

 

Ainda nem são horas de almoço e ela, que o deixou na creche há duas ou três horas, já está cheia de saudades. Por muito que esteja focada no trabalho é inevitável que o pensamento, de vez em quando, vá ter com o pequenino que faz a vida dela tão maior. E nunca mais chegam as cinco da tarde para o poder abraçar outra vez...

 

As horas vão passando, o cansaço acumulado começa a provocar dano e a dor de cabeça começa a espreitar lá de longe. Ela lembra-se que não há cenouras em casa e é preciso fazer sopa para o miúdo. Também dava jeito trazer meia-dúzia de ovos para pincelar o empadão. Ainda bem que conseguiu cozer o frango de manhã. Começa a pensar que se calhar era boa ideia passar no supermercado antes de apanhar o miúdo mas, de imediato, o sorriso dele aflora ao pensamento dela acompanhado da inevitável pontada de culpa.

 

E assim ela passa primeiro na creche onde é recebida por dois bracinhos no ar e uma corrida para os seus braços. O dia está ganho. No supermercado começa a arrepender-se de não ter ido às compras sozinha. O miúdo está excitado, corre pelos corredores, tira coisas das prateleiras, quer um chocolate e faz birra. Depois atira-se para o chão. Ela sopra, conta até dez, pega no puto ao colo e vai para a caixa. Paga. Aguenta outra birra porque ele agora decidiu que não quer sentar-se na cadeirinha do carro. A dor de cabeça está cada vez mais presente.

 

Em casa tenta brincar com ele enquanto orienta o jantar. Mete a Bimby a rodar e dá uma bolacha Maria ao miúdo ao mesmo tempo que liga a televisão na BabyTV na esperança de ganhar dez minutos para desfiar o frango. Mas o miúdo não está com meias medidas e quer brincar com a mãe. Só que ela agora não pode, tem o jantar para fazer. E a culpa, emparelhada com a dor de cabeça, está cada vez mais presente. 

 

Entretanto, depois de por um qualquer milagre ter conseguido meter o empadão no forno, senta-se um bocadinho no tapete da sala e brinca vinte minutos com o miúdo ao mesmo tempo que pensa se haverá calças de ganga lavadas para lhe vestir amanhã. Antes de dormir ainda é preciso meter a máquina a lavar e recolher a roupa que ficou estendida de manhã. A dor de cabeça aumenta quando pensa na montanha de roupa por passar na cesta.

 

E chega a hora do banho. O puto chapinha na água e a casa-de-banho fica molhada de ponta a ponta. Vesti-lo parece uma espécie de luta que acaba com uma mãe descabelada, molhada e a raiar a loucura. Depois dele vestido e lavado ela enche-o de beijinhos culpados e recrimina-se mil vezes por ter perdido a paciência.

 

Quando o senta na cadeira da papa para jantar sabe que um dos dois cenários pode ocorrer: ou ele come tudo, feliz e contente sem grande alarido, ou vai estar num dos dias em que não quer a sopa, depois quer comer o segundo prato sozinho, depois suja-se e deixa tudo à volta numa espécie de cenário pós-guerra. Ela pede baixinho, para dentro, que seja a primeira opção. E por milagre é o que acontece. Ele janta rápido e depois de lavar os dentes é altura de o deixar brincar mais um bocadinho.

 

É hora do jantar dos adultos. E depois há uma cozinha que não se arruma sozinha. Nesta altura a dor de cabeça já grita por, ao menos, um paracetamol e a culpa está colada a ela porque o tão apregoado tempo de qualidade lá em casa parece não querer entrar. Quando finalmente vai adormecer o miúdo já é meio desesperada com tudo o que ainda tem para fazer. Mas ainda assim rouba ao tempo cinco minutos para o ver dormir, tão lindo, tão perfeito, tão feliz. Aqueles cinco minutos servem para o decorar, para prometer que amanhã vai ser diferente.

 

Só falta meter a roupa na máquina, recolher a que está estendida e preparar as mochilas e lancheiras para o dia seguinte. Entretanto o paracetamol tem mesmo que ser tomado porque, de uma forma qualquer, também ele engana o cansaço. E ela enche uma caneca com água que mete no microondas para despachar serviço e faz um chá de camomila na esperança de que a ajude a descansar. O sofá está quase ali. É só arrumar os livros espalhados, apanhar os legos, guardar a bonecada. E finalmente ela senta-se. 

 

Tinha jurado que hoje ia ler um bocadinho ou ver um episódio da Anatomia de Grey. Mas são 00h30' e, amanhã, antes das 7h, já vai estar de pé. Os olhos começam a pesar e os últimos pensamentos do dia são o que fazer para o jantar de amanhã e depois o sorriso do filho. E por mais estranho que pareça esse pensamento de sorriso traz-lhe o cheirinho perfeito dele e mesmo cansada, com a cabeça a rebentar, ela sabe que vale tudo a pena e promete a si mesma, com todas as forças que lhe restam, que amanhã será melhor.

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