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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

21
Fev18

A maternidade explicada em provérbios #1

 

Nunca digas desta água não beberei

Quando engravidei li tudo o que encontrei para ler sobre parentalidade, fixei um zilião de teorias, milhentos nomes de pedagogos conceituados, centenas de conselhos práticos sobre a melhor forma de lidar com as crianças. No dia antes do Pedro nascer já sabia que com seis meses o ia passar para o quarto dele, já sabia que não o queria a dormir na nossa cama, já sabia que quando recusasse a sopa não lhe ia oferecer o segundo prato e que jamais ligaria o tablet à hora das refeições. No meio de tantas certezas a única coisa que cumpri foi que, efectivamente, aos seis meses passou para o quarto dele. Mas aos doze, com os primeiros pesadelos, saltou directamente para o nosso quarto e, pior ainda, para a nossa cama. E está de tal forma bem instalado que já vai fazer três meses que por lá permanece. Todos os dias penso em dar-lhe ordem de expulsão mas depois... Olha, é só mais hoje. E ele lá vai ficando... Entretanto, e no que à comida diz respeito, já engoli dez vezes todas as minhas teorias. Prefiro mil vezes ligar o tablet e vê-lo comer sossegado do que passar a refeição a tirar-lhe as mãos de dentro do prato e outras badalhoquices afins. Todas as coisas que eu jurava a pés juntos nunca fazer tornaram-se na "água que bebo". É a vidinha.

 

 

A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha

Este, se calhar, depois de todos os meus posts anteriores já nem era preciso explicar mas cá vai... Nisto da maternidade não há como não estar constantemente a olhar para a "galinha da vizinha". Quando damos por nós estoiradas, mal-encaradas, aborrecidas e desarranjadas, inevitavelmente acabamos a olhar para outras mães que parecem saídas de um anúncio de manteiga magra. E, sem percebermos como, elas andam impecavelmente arranjadas, com um ar sereno e de quem tem toda a paciência do mundo para os seus rebentos que, por acaso, também andam sempre bem vestidos e penteados. Os nossos, ao lado deles, parecem ciganitos e nós, ao lado delas, parecemos umas maníacas a um passinho do esgotamento. E não sejamos mentirosas a dizer que nos estamos a marimbar para isso porque, na verdade, mesmo que o estejamos em 99% dos dias, há sempre um cabrão de um dia qualquer em que é inevitável não olhar e pensar "mas porque raio é que não consigo ser assim também?". Não me vou meter aqui com grandes teorias que esse não é o objectivo deste post mas, há uma frase que circula pelas redes sociais agora que diz qualquer coisa como "estamos todas a perder a sanidade mental, só que umas disfarçam melhor que outras", e acho que esta frase resume tudo. Mas há dias, ui, há dias em que é quase impossível não olhar duas vezes para a "galinha da vizinha" e não a imaginar depenada e pronta a entrar na panela da canja.

 

 

Cada cabeça sua sentença

Na maternidade tudo opina, graças a Deus. Não há cão nem gato que não tenha opinião e imensa experiência sobre todos os assuntos. Tudo o que os pais decidem é passível de ser comentado e discutido mas, a parte pior, é que nunca nada é consensual. Se a mãe diz para dar banho ao bebé de manhã, logo a sogra dirá que o melhor banhinho é à noite para acalmar o menino. Se o pai acha que o menino está corado e com boa vitalidade, o avô achará certamente o menino magrinho e assim para o amarelado. Se os pais fazem uma festa porque o menino começou a andar, os tios torcem o nariz porque já acham que ele tem é idade para correr. E começamos a viver num mundo tão cheio de opiniões que acabamos todos por chegar à mesma conclusão: só a nossa é que conta e pronto. Quem é que os fez? Quem é que os pariu? Então somos nós que sabemos e fim da conversa. Reparem, nem entre pediatras, por exemplo, se conseguem opiniões consensuais. Se estivermos à procura de fórmulas universalmente aceites morremos sem ter feito nada. Mas lá que as milhentas opiniões nos fazem a cabeça andar à roda... Lá isso fazem! Aproveito, por isso, para fazer um apelo a todos os familiares e amigos que rodeiam crianças pequenas: estejam caladinhos, cerrem a boquinha e guardem as vossas opiniões para vocês próprios. O mundo agradece.

 

 

Casa roubada, trancas à porta

Um dia o Pedro comeu uma vela de cheiro que estava em cima da mesa da sala. Nesse dia escondi todas as velas. Um dia o Pedro trepou a mesinha de centro e caiu de cabeça no chão. Nesse dia tirei a mesa. Um dia o Pedro meteu o piaçaba na boca. Nesse dia comecei a trancar a casa-de-banho. Um dia o Pedro caiu da minha cama abaixo. Nesse dia comecei a meter cadeiras do lado dele... Podia estar aqui horas a debitar a quantidade de "trancas" que já meti nesta casa mas, na verdade, serão sempre insuficientes. A sensação que tenho, enquanto mãe, é que passo o tempo a correr atrás do prejuízo porque sempre que anulo um perigo ele descobre outro. Por muito que eu olhe e tente prever todas as possibilidades ando sempre um passo atrás dele. Na maioria das vezes os problemas (que eu nem sabia que o eram) só são resolvidos depois do mal estar feito. E desconfio que deve ser assim nas casas todas. Muito gostava eu de saber como é que estas coisinhas que nem ao metro chegam têm uma imaginação tão pródiga no que ao disparate diz respeito. Ou será só o meu?

 

 

Querer é poder

Deixei para último o provérbio que, para mim, mais intrinsecamente se relaciona com a maternidade. Não importa o cansaço, não importa que o dinheiro não abunde, não importa que estejamos doentes. A gente pode tudo. As mães são uma espécie de super-heroínas que de tanto quererem acabam por conseguir tudo. Quando olhamos para eles queremo-los tanto e tão bem que a força chega sempre de algum lado. Pode chover lá fora e cá dentro que os nossos meninos chegarão sempre ao fim do dia de coração aquecido. E de alguma maneira haverá jantar na mesa, lençóis lavados na cama, bebés perfumados e brincadeiras antes de dormir. Mesmo que haja momentos de desespero, mesmo que os nossos olhos já mal se consigam manter abertos. E de tanto querermos (e de tanto os querermos) acabamos mesmo por poder tudo. É que por eles a gente veste a capa e empurra o mundo até onde for preciso. 

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