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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

23
Fev18

AmaTORMENTAção (ou "Eu e as mamas")

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Antes de começar a relatar a minha experiência, e para que não haja mal-entendidos, deixem-me já dizer que sim senhora, o leite materno é o alimento de eleição para os bebés e, se possível, deve ser administrado em exclusivo até aos seis meses de vida. É o alimento mais completo possível e as suas vantagens são de tal forma conhecidas que nem me vou dar ao trabalho de estar aqui a enumerá-las. Tendo deixado este ponto claro, vamos ao que interessa.

 

Ainda durante a gravidez fui percebendo que a amamentação era um assunto pouco confortável para mim. Nas aulas de preparação para o parto, nas pesquisas que fazia pela internet, nos relatos de outras mães... A beleza descrita pela maioria das pessoas foi-me sempre difícil de encontrar. Sempre que me imaginava a amamentar um bebé sentia um desconforto estranho mas, pressionada pela evidência, e sabendo que era o melhor para o miúdo decidi que iria tentar. Acho que, muito secretamente, ainda tive uma pequena esperança de não ter subida de leite ou assim mas, a verdade é que ainda o Pedro não tinha nascido e já o colostro me escorria em quantidades industriais.

 

Como o parto foi complicado e acabámos por ter uma cesariana com anestesia geral não vi o Pedro no dia em que nasceu. Eu segui para o puerpério e ele para a neonatologia onde, na primeira noite, foi alimentado com leite adaptado por copo. A fotografia que ilustra este post é já do segundo dia de vida e mostra a primeira vez que o Pedro mamou. A pega foi logo correcta e ele foi muito despachado mas, acreditem, ainda bem que não se vê a minha cara. Alguém me devia ter avisado que mesmo uma pega correcta era extremamente dolorosa ao início, até que o mamilo calejasse. Nem nesta primeira vez, nem em nenhuma outra, senti grandes coisas além de desconforto e alguma dor. Não senti nunca que fosse um importante momento de vinculação nem que era um momento mágico meu e do bebé. Na verdade só queria que ele se despachasse a mamar para depois, sim depois, poder enchê-lo de miminhos.

 

Com a saída do hospital as coisas não ficaram mais fáceis. Por muito óbvio que seja é sempre importante relembrar que o pai não tem mamas, isto é, ter até tem mas leitinho que é bom, nada. Todas as vezes em que o bebé precisa de mamar é a mãe que se tem que chegar à frente. Foi a natureza que o determinou e isto, já se sabe, as coisas são como são. No nosso caso a tentativa de parto vaginal trouxe-me algumas mazelas a nível da grelha costal que fizeram com que amamentar fosse extremamente desconfortável, independentemente da posição. As noites (e os dias) tornaram-se uma espécie de suplício em que me sentia pouco mais que uma escrava das mamas.

 

Fui andando para a frente, aguentando o barco, fazendo cara alegre. Mas o prazer nunca esteve lá. Eram os momentos menos felizes do meu dia com o bebé. Sempre que a hora de mamar se aproximava o meu humor deprimia. Além de tudo isto, em termos físicos, a amamentação teve um impacto muito negativo no meu corpo. Se já sou magra, a amamentar sentia-me a desaparecer. Bebia litros de água, estava sempre seca e fui perdendo peso até não ter um único par de calças que não me caísse pela cintura. Comecei a andar cansada, sem energia e a meter a amamentação cada vez mais em causa até que aos três meses, pela necessidade de fazer uma medicação incompatível com a amamentação, acabei mesmo por suspendê-la. E lamento informar mas nunca tive pena.

 

Os meus dias melhoraram muito. Voltei a ganhar peso e energia. O bebé manteve-se alegre e saudável. A altura do aleitamento, com o biberão, deixou de ser um stress. Era um prazer ver o meu pequenino comer e essa tarefa passou a ser dividida com o pai o que me permitiu descansar mais e melhor. A minha vida e a minha relação com o bebé melhoraram muito depois de terminar a amamentação. Se isto pode chocar muita gente? Se calhar sim, pode. Mas é apenas a verdade. Hoje sei que o leite materno é muito importante para o bebé mas, mais importante ainda, é que a mãe esteja saudável e feliz, disponível e inteira para se dedicar ao filho. Um biberão dado com alegria e amor pode ser mil vezes melhor para os dois do que uma mama em lágrimas. E nem me venham com a história da vinculação. Uma mãe que amamenta não gosta mais do filho nem está mais próxima dele do que uma que, por qualquer razão, não o faz. Acreditem que sei, passei pelas duas coisas.

 

Quanto a este bebé que aí vem o mais certo é experimentar amamentar outra vez. Sei que é o melhor para ele. Mas uma coisa vos garanto, assim que sentir que o caminho não é esse, não haverá arrependimentos nem insistências. É fim de linha. É leite adaptado. É amor em igual medida. Sofrer outra vez? Não, obrigada. Infelizmente a internet está cheia de autênticas bullies das mamas que não perdem uma oportunidade de apontar o dedo e de se superiorizar às mães que não amamentam (e se tiverem então o azar de dizer que não o fazem apenas por opção, uiii). É por isso que faço um apelo a todas as mães atormentadas pela questão das mamas: foquem-se em vocês e no vosso bem-estar, escolham sempre ser felizes. Não se castiguem. Dos nossos filhos, da nossa vida e do nosso coração sabemos nós. 

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