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A mãe imperfeita

Porque a maternidade é difícil. E as mães precisam de rir.

A mãe imperfeita

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07
Set18

As cinco perguntas parvas que fazem sobre os surdos

* Texto de Rui Miguel Pinheiro
 
** O modelo da fotografia é o meu filho Pedro há uns bons mesinhos atrás
 

IMG_20180122_183324.jpg

 

 
A pedido de muitas famílias (na realidade, só foi só uma. Bem, para ser sincero, nem foi bem uma família, mas um membro de família. Mais precisamente uma Mãe. E nem sequer é das perfeitas) seguem-se algumas desmistificações que eu, como surdo (e se calhar, por tabela, muitos outros surdos) gostaria de ajudar a esclarecer.
 
 
 
1. Mas há mesmo uma Língua Gestual Portuguesa (LGP)?
 
O título deste ponto até era para ser se a língua gestual não era internacional e depois eu dizia: não, não é igual em todo o mundo, existem várias línguas, é praticamente um cada-país-tem-a-sua-e-alguns-por-acaso-usam-a-mesma, como acontece, aliás, com as línguas orais.
 
Mas assim só preciso responder que "sim" à pergunta deste ponto e tudo o resto se torna óbvio, para bom entendedor: as línguas, afinal, não são só faladas; também podem ser gestuadas. E é língua e não linguagem, como também se costuma erradamente dizer, dado que possuem gramáticas próprias, histórias e enraizamentos sociais que uma mera linguagem não tem.
 
E sim, há mesmo pessoas que não acreditam que uma língua como a LGP seja uma língua de verdade. Quando estudava no IST, conheci uma professora catedrática que negava veemente que a LGP fosse uma língua. Como, entretanto, também conheci um informático experiente que acredita que a Terra é plana, até fiquei descansado. Afinal, a ignorância (e a teimosia na mesma) não é um exclusivo dos incultos.
 
 
2. Um surdo é uma pessoa normal?
 
Esta é a pergunta que muitos pensam (ouvintes e surdos!), mas não dizem. Então aqui vai: não, claro que não é normal. Toda a gente tem uma perspetiva através da qual é anormal: até mesmo uma pessoa perfeita seria anormal, porque todos somos imperfeitos de alguma maneira. Ironicamente, ser-se completamente normal seria uma perfeita anormalidade.
 
Anormal é quando algo é diferente da norma / maioria, num dado contexto. Então, por definição, um ouvinte numa sala cheia de surdos é sem dúvida o anormal do momento. É tudo uma questão de estar no local errado, à hora errada, coisa que os surdos são pródigos em fazer, dado que muitos deambulam nesse tal mundo exterior onde o normal é ouvir e, por consequência, a comunicação sonora abunda.
 
Não vale a pena negar que existe uma diferença e insistir que "fulano tal é surdo mas é uma pessoa perfeitamente normal!". Não, parem, por favor, de varrer a surdez para debaixo do tapete e fingir que ela não existe. Apesar de ser invisível, ela está lá e, portanto, fulano tal é surdo e como tal vão acontecer situações em que precisará de "N" coisas num formato acessível (em LGP, por escrito) e/ou próteses auditivas e/ou implante coclear, o que seja.
 
É tudo uma questão de, quando acontecer algum tipo de barreira comunicativa, agirmos como parte da solução e não do problema.
 
 
3. Afinal ouves ou quê?
 
Ou quê. Eis uma questão que me era colocada quando eu ainda usava prótese auditiva, antes do resíduo que ainda tinha bater no fundo e já não dar mais para amplificar o som. Alguém gritava "RUIII!!" e eu virava a cara. E dizia-me: "aaah! Mas afinal ouves ou quê?". E eu respondia que me tinha parecido ouvir um burro a zurrar e assustei-me. Duas vezes: uma por ter ouvido um zurro e a segunda por constatar que era mesmo um burro (metafórico).
 
Há uma longa dissertação que poderia fazer aqui sobre perda de audição condutiva vs neurossensorial, mas vou fazer um resumo simplista às três chapadas: condutiva é quando o som chega mais baixo (chap!), neurossensorial é quando o som é deturpado (chap!) e mista são os dois ao mesmo tempo (chap!). Então, para quem tem surdez neurossensorial (ou mista), o som que chega ao cérebro, por muito que possa ser amplificado ou ajustado pelas maravilhas tecnológicas que vão aparecendo na área, tende a chegar torto (ainda que chegue um "som").
 
E não, não me traumatizei na infância por o meu nome aparentar ser Hiiii-óóó.
 
 
4. Aaaah! És surdo mas falas??
 
Apesar de, por vezes, pretensos profissionais da escrita que por acaso arranjam emprego em jornais e revistas teoricamente respeitáveis ainda escreverem "surdo-mudo", ser-se surdo é, por definição, não ouvir. E, apesar de ser obviamente mais fácil falar corretamente quando se ouve (ou "adquirir a fala" como se usa no jargão profissional), a surdez não implica um atrofio das cordas vocais, por isso, sim, eu não só falo, como grito, canto e num dia bom até faço beatbox. E esta hem?
 
Portanto, um surdo não é mudo, embora muitas pessoas digam à porta fechada que, no meu caso, se calhar até gostariam que fosse.
 
 
5. Para quê isso dos surdos se juntarem?
 
Porque sim! Arre c'a chato. Deixa-nos juntar em paz!
 
Esta acabou por ser a pergunta com a resposta mais séria e comprida e muito ficou por dizer.
 
Conversei um pouco com quem me fez esta pergunta e percebi que, na perspetiva de alguns ouvintes, um surdo é suposto tentar "chegar" o mais perto possível de um ouvinte, ou seja, ler nos lábios, aprender a falar (mas depois... ver pergunta 4) e integrar-se na sociedade. Nessa ótica, agruparem-se, onde a comunicação gestual predomina, é visto como o percurso feito ao contrário. Porque quererá o surdo dar-se com outros surdos de propósito, em vez de cultivar as relações do dia a dia na família, no emprego, na vizinhança? Não são estas pessoas mais importantes que embirros aleatórios que por acaso também são surdas?
 
É uma questão polémica por dois motivos. Por um lado, muitos surdos consideram a Comunidade Surda como uma segunda família (por vezes primeira) dado que encontram aqui um apoio, compreensão e integração naturais que não costumam ter "lá fora"; por outro, a pergunta expõe um preconceito da maioria contra uma minoria que é diferente e que teima e não se integrar.
 
Num ambiente "hostil" e estrangeiro, as pessoas da mesma língua tendem a concentrar-se. Vejam as chinatowns, os bairros muçulmanos, as comunidades ciganas. Até mesmo comunidades portuguesas em várias cidades do mundo! E as comunidades maioritárias nesses locais indignam-se perante essas agremiações: porque é que os chineses se juntam assim? E os muçulmanos? E os ciganos? Porque é que não se integram plenamente na sociedade? Notam o paralelo?
 
Com os surdos, acontece um pouco a mesma coisa: sendo muitos possuidores de uma língua própria (no nosso caso, a LGP), experienciando o mesmo tipo de dificuldades na sociedade maioritária (o que propicia a partilha e interajuda) e sentindo-se muito mais confortáveis comunicando numa língua que dominam e com a qual não sentem barreiras comunicativas, parece óbvio que combinem encontros entre si para convívio imerso nessa língua e acabem por fazer disso parte do seu dia-a-dia.
 
Por vezes acontecem conflitos entre o surdo e famílias ouvintes, por estas sentirem que estão a ser trocadas por outra "família". Dado que este texto está a ser escrito para uma página onde estão muitas mamãs (e alguns papás), acredito ser relevante falar um pouco disto. Como devem perceber olhando à volta (e não apenas para séries de televisão norte-americanas) as famílias portuguesas de maioria ouvinte, em geral, não aprendem a LGP, pelo que, se o surdo tiver uma perda auditiva que não lhe permita acompanhar fluidamente conversas faladas, vai desinteressar-se das reuniões familiares, aguentando estoicamente e/ou entretendo-se sozinho (ver televisão, ler um livro, mexer no telemóvel). Eventualmente, irá passar mais tempo em convívios com outros surdos que com a família, onde se sinta bem. E o problema estará nas famílias, não no surdo.
 
Queixarem-se que o surdo é que se isola e não faz um esforço por acompanhar tudo é injusto e só reforça o afastamento. Nem sempre a reabilitação auditiva permite a compreensão plena da fala. Ler nos lábios cansa muito mais do que parece. É um esforço contínuo que requer muita concentração. E torna-se mais complicado com o aumento das pessoas presentes, pois temos de estar a olhar a boca que vai falar, antes que comece! E, como cada pessoa mexe os lábios de forma ligeiramente diferente, é preciso um período de adaptação à boca de cada pessoa nova que conhecemos, até sermos capazes de perceber tudo. Isto cansa. Cansa muito. Às vezes é tão impossível que já nem tentamos. E quando as coisas chegam a este ponto, deixam de ser gratificantes e tendemos a afastar-nos. Por muito que gostemos das pessoas. Já para não falar da sensação que por vezes nos fica que parece que querem à toda força que sejamos como os ouvintes, que ouçamos, do que aceitarem-nos como somos, não só às nossas capacidades e competências, mas também limitações.
 
Porque a vida é para ser vivida dentro da nossa capacidade de sermos felizes, não na dos outros.
 
 
 
Eram para ser 10 mas como escrevi muito só em 5, ficaram cinco! Todavia, para não ser injusto, se tiverem mais perguntas parvas, é só dizer; quando estas chegarem às 5 posso fazer uma parte 2.
 
 
*O Rui escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico

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