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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

10
Mar18

As festas de aniversário

 

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Nasci em Julho de 1986 e, enquanto miúda, tive sempre um bocadinho de desgosto que o meu aniversário calhasse mesmo no meio das férias de Verão. Sempre achei que era uma altura manhosa para festejar porque havia sempre meia-dúzia de colegas de férias, fora da nossa cidade e, muitas vezes, era eu própria que me encontrava ausente. Ainda assim, guardo com um carinho imenso todas as festas de aniversário da minha infância. Lembro-me particularmente de uma dessas festas em que o meu pai montou uns toldos no quintal e a minha mãe deixou que a festa se prolongasse muito para lá da hora marcada, fez uma canja e lombo assado e todos os meus amigos jantaram lá connosco. Juro que foi um dos dias mais felizes da minha infância. E não foi preciso muito. Havia sandes de queijo e fiambre feitas com pão-de-forma, rissóis, gelatina, salame, mousse de chocolate e bolo de iogurte. Havia meia dúzia de balões pendurados e um bolo de aniversário de pão-de-ló com recheio de doce de ovos. Havia coca-cola porque nessa altura as bebidas com gás ainda não eram um crime de lesa majestada e, acima de tudo, havia amigos. Não foi preciso nada mais do que isso para que ainda hoje, mais de vinte anos depois, recorde em pormenor tudo o que se passou nesse dia.

 

É verdade que nestes anos todos o mundo mudou muito mas hoje, depois de ver as fotografias da festa de aniversário de uma menina de seis anos, fiquei a pensar se não andamos a exagerar um bocadinho. Reparem, a festa estava lindíssima, nem imagino quanto terá custado aos pais, mas parecia quase uma espécie de casamento para crianças. Havia uma mesa elegantemente decorada com um bolo de aniversário que era praticamente uma obra de arte e cheia de outros pormenores de aspecto delicioso e depois existiam quatro outras mesas mais pequenas, redondas, uma para salgados, outra para bebidas, outra para os brindes e outra para material de apoio. Como é habitual agora, até os rótulos das garrafas eram alusivos ao dia. No fundo do salão havia um espaço com insufláveis e a festa teve um grupo de animação com um mágico, um desafio de karaoke e outras actividades que nem vale a pena estar aqui a descrever. E é como vos digo, estava tudo absolutamente maravilhoso, uma coisa digna de se ver mas a pergunta que ficou a pairar na minha cabeça foi "será que vale a pena?".

 

Às vezes acho que as festas de aniversário de hoje são quase tanto para agradar aos miúdos como aos pais. A fasquia está colocada num ponto tão alto e existem tantas tentativas de superação que não sei bem para onde nos estamos a dirigir. E reparem que contra mim falo que, se puder, vou de certeza fazer igual (ainda que uma parte de mim pense que, se calhar, montar uma mesa na garagem e convidar os amiguinhos da escola seria mais do que suficiente para o fazer feliz - mesmo que não existam insufláveis ou que a decoração do bolo não combine com a toalha de mesa). A verdade é que nós, pais do século XXI, parecemos ter uma tendência inata ao exagero em tudo o que aos nossos filhos diz respeito. Se nos pedem um trabalho da creche damos o tudo por tudo para fazer uma quase obra de arte, se nos pedem um bolo para vender na festa de Natal vamos praticamente tirar um curso de cake design, se nos cabe organizar uma festa de aniversário, uiiiii... Saiam da frente que temos que começar a escolher o tema, as cores da decoração e as lembranças. E a minha pergunta final é mesmo se fará sentido. Os miúdos ficarão mais felizes? Guardarão melhores recordações? É que, às vezes, é tão fácil fazê-los felizes com sandes mistas, um jogo de escondidas e um toldo no quintal...

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