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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

18
Abr18

Às vezes tenho saudades da vida antes de ser mãe

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Às vezes tenho saudades da vida antes de ser mãe. Nessa altura dormia manhãs inteiras com o sol a entrar pela janela e, quando me levantava, comia um prato de cereais e fruta e seguia para o ginásio. Tinha todo o tempo do mundo para conversar com amigas porque os meus horários não dependiam das necessidades de ninguém. Era eu e pronto. Nunca me preocupei se havia sopa feita ou fruta fresca em casa. Não havia horas para nada e as regras eram unicamente aquelas que o horário laboral me impunha. Conseguia fazer maratonas de séries que duravam uma noite inteira ou despachar um livro num dia. Tinha dias em que até me dava ao luxo de me esquecer de viver. Conseguia andar mais ou menos actualizada em relação à moda e usava maquilhagem e lentes de contacto sempre. Ir ao cabeleireiro ou à esteticista era uma rotina e, mesmo assim, não chegava a meio do mês a pensar em mil maneiras de fazer esticar o dinheiro. Gostava de viajar, de me perder na história de cada cidade e, às vezes, conseguia fugir até ao mar. Era absolutamente livre na altura. 

 

Um dia, sem programar, engravidei. Sabia que era uma possibilidade até porque não estava a fazer nada que pudesse impedir uma gravidez. E foi assim, com um teste de farmácia, que as coisas começaram a mudar. De repente era preciso tomar iodo, ácido fólico e ferro religiosamente e o ginásio foi proibido por complicações inerentes à nova condição. De repente era urgente encontrar outra casa porque não havia grandes formas de encaixar um bebé num T1 que já para dois era pequeno. E assim, mesmo com o meu filho ainda na barriga, fui sentindo a vida mudar. As noites começaram a ser mal dormidas por culpa da azia, dos chichis e da falta de posição, os sonhos tornaram-se experiências quase surreais, o corpo mudou drasticamente. Comecei a ter cuidados alimentares que não tinha porque afinal, agora já não era só eu. 

 

E depois o meu filho nasceu e a minha vida ficou presa a ele de forma permanente. Desde a primeira vez que o vi que percebi que nunca mais ia ser livre mas, no meu coração percebi também outra verdade: aquela era a melhor prisão do mundo. Fiquei amarrada a um bebé pequenino que me assustava. Lembro-me que quando saí da maternidade tive que fazer um esforço surreal para não chorar. Só pensava "e agora?". Valeu-me o marido, o instinto e o amor gigante. Compreendi o chavão que antes me irritava de morte, era verdade que o meu coração batia fora do meu corpo agora. Nunca mais consegui fazer uma maratona de séries ou de leitura mas agora dou um valor especial a todas as meias horas que consigo tirar para ler uns capítulos. Lembro-me de informar o pai que durante os episódios da última temporada de GoT a responsabilidade do bebé era toda dele e, posso dizer, que cada episódio me soube pela vida.

 

Agora sempre que saio de casa levo um saco enorme atrás e ando sempre presa às horas. Hora do almoço, hora da sesta, hora do lanche, hora de dormir. Tenho sempre o cuidado de ter fruta fresca em casa e faço sopa quase todos os dias. Para além da sopa às vezes dou por mim às nove da manhã a preparar os ingredientes para uma jardineira de vitela e acho super normal comprar linguado para grelhar ao bebé mesmo que esteja a 25€/Kg. Estico o cabelo em casa e só vou à cabeleireira quando o espigado das pontas atinge tamanhos vergonhoso. Arranjo as unhas se tiver algum casamento e, nos dias normais, uso quase sempre leggings e um camisolão por cima. As minhas maminhas ficaram feias e o meu rabo flácido, não tenho paciência para maquilhagem ou lentes de contacto. É claro que há dias em que me lembro que sou mulher e tento arranjar-me melhor. Nesses dias, que me sabem pela vida, sinto-me linda e brilhante, muito mais do que antes quando andava sempre cuidada. Não temos viajado nada e os meses têm sido sempre demasiado compridos para o ordenado. 

 

Às vezes tenho saudades da vida de antes, sem grandes responsabilidades, prisões ou obrigações. Era livre. Mas a verdade é que não a trocava pela vida de agora. Presa a um menino lindo e a uma barriga a crescer outra vez. Irremediavelmente presa, apaixonadamente presa e muito, muito grata por esta prisão.

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