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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

03
Fev18

As virgens ofendidas

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Em primeiro lugar esclarecer que este não é propriamente um post sobre a maternidade. É sobre a vida, assim no geral. Sim, porque a vida, em toda e qualquer circustância está cheia desta praga que, não sei porquê, essas pessoas que mandam inistem em não decretar calamidade pública. Refiro-me, obviamente, às virgens ofendidas e, ao contrário do que possa parecer, não é só na internet que elas existem (apesar da internet ser, claramente, o seu habitat de eleição). Vamos por pontos:

 

1. Sabem que sou enfermeira, certo? Há uns tempos fiz uma publicação no meu facebook pessoal que se tornou viral. Essa publicação dizia, algures, que a enfermagem não é uma vocação, é uma profissão. Não estão bem a perceber o ruído que esta afirmação causou. Fui praticamente retalhada às postas por uma antiga professora primária que, para além de ter comentado a publicação, muito indignada, ainda veio para o messenger moer-me a cabeça. Que a enfermagem era como o ensino, se não tinha vocação que me fosse embora, era mais uma parasita. Fiquei ali naquela, respondo ou não respondo? Acabei por não responder mas epá, tanta coisa que me apetecia ter-lhe dito. A dita senhora professora toda a vida deve ter prescindido do vencimento, deve ter passado anos a dar aulas a crianças desfavorecidas em África e agora, na velhice, tendo certamente recusado qualquer reforma, deve estar aflita para pagar as despesas médicas causadas pelas dores nas costas, mesmo no local onde lhe estão a romper as asas. Zero paciência para estas pessoas, do melhor que o mundo tem, cheias de boas intenções e vocação. Já eu, grande ursa, quero é ser paga (e de preferência bem paga) pelo trabalho que faço e para o qual estudei e me preparei durante anos. É assim tão difícil de perceber?

 

2. Quando estava grávida do Pedro fiz uma diabetes gestacional lixada. Acabei a gravidez internada a dar doses cavalares de insulina rápida, uma coisa assim mesmo para o melhorzinho. Na altura do diagnóstico da diabetes comecei a chamar-lhe "o meu parasita". Uiiiiiiii. Como é que é possível? "Esta cabra não gosta do bebé, chamar parasita à criança, que mau gosto, que falta de tudo". Ó senhoras, cheguem-se cá a mim que tenho um recadinho para as queridas: ide cagar! O puto é meu e chamo-lhe o que quiser. A alcunha dele cá em casa é "macaco líder" (e esqueçam lá que não tem porra nenhuma a ver com o outro lá da claque do FCP),e agora, de vez em quando, chamo-lhe "o meu mouquinho". Ainda assim dou a vida por ele sem hesitar meia vez. Yah, pelo meu parasita, macaquinho, mouquinho. Vocês certamente gostam mais dos vossos filhos porque lhe chamam fofinho, lindinho e bebézinho. Tanta falsa moral, tanta parvoíce.

 

3. Numa brincadeira escrevi uma pseudo piada parva com o nome das duas miúdas mais pequenas da Luciana Abreu. Não sabia que a mulher tinha um clube de defensores acérrimos e dementes. Fui ensaboada da cabeça aos pés. Pedro é que é bonito, diziam eles. Epá, se é bonito ou não, fica ao critério de cada um mas uma coisa ninguém lhe tira: é normal, comum. Se a Luciana Abreu ficasse realmente incomodada com o que se escreve sobre o nome das crias, depois de uma Lyonce e de uma Lyannii tinha tido uma Maria e uma Ana, não? A mulher está-se a cagar, assim como eu. Só estas virgens ofendidas é que não porque elas, defensoras da moral e dos bons costumes, não se podem estar a cagar para nada, têm que dormir com um olho aberto e outro fechado não vá o mundo desabar por falta de inspecção.

 

Enfim, podia relatar aqui mil casos como estes. A minha vida, especialmente nos últimos tempos, tem sido levar com gente desta, que se ofende por toda e qualquer porcaria. Até tinha uma gira para contar, numa discussão sobre papas caseiras vs papas industriais, mas acho que vou guardar essa para o álbum "pérolas das super mães". Pessoas, gente ofendidinha, miseráveis de vida triste: desamparem-me a loja, morram longe, sumam-se, explodam. Mas, caraças, deixem-me em paz.

 

Ah, para finalizar que isto já vai tão extenso que aposto que a maioria das pessoas não vai ter paciência para ler, tenho-me debruçado a sério sobre este fenómeno das virgens ofendidas e cheguei à conclusão que, em 90% dos casos, não é o que a gente escreve que as importuna. É o analfabetismo funcional que carregam, a incapacidade de compreender aquilo que lêem, a interpretação literal e pouco inteligente de tudo o que lhes aparece escrito pela frente. Voltem à escola. Ou voltem à vida, a uma vida, à vossa vida. Ou o problema disto tudo é que não têm uma?

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