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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

09
Jun18

Carta à mãe que nasce

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Estás em casa e sentes que há qualquer coisa errada. Não era assim que tinhas imaginado que seria. Percebes na cara dos que te rodeiam que se espera que estejas feliz e radiante. Tu tentas corresponder às expectativas e, por isso, finges que a maternidade é realmente o lugar mais cor-de-rosa do mundo. Mas lá dentro estás a tremer de medo e de cansaço. Sentes que estás fraca e doente, não sabes o que é que fizeram ao teu corpo e não percebes bem em que ponto está a tua vida. Mal te reconheces.

 

Estás sozinha e rodeada de gente. Os dias são todos iguais e sentes que tu já não és tu. Aquele bebé, o teu filho, é precioso mas assustador. A ideia de que é para sempre deixa-te desconfortável, tens medo de não cumprir, não chegar lá, não ser boa o suficiente. Antes sabias quem eras, agora só tens dúvidas. O cansaço bloqueia-te, mal te deixa raciocinar. O teu mundo gira à volta das necessidades do teu bebé e tu nem percebes bem em que ponto deixaste de ser filha para te tornares mãe.

 

Sentes-te culpada porque estes dias não têm sido o mar de rosas que te disseram que seriam. Estás estranha e angustiada. Voltas à segunda noite que passaste no hospital quando o medo foi tão imenso e as horas tão longas que pensaste que não ias aguentar. Olhas para o bebé que é teu e respiras fundo. Quando olhas para ele sabes que valeu a pena mas não fazias ideia que seria tão difícil, ninguém foi capaz de te contar a verdade. Nunca ninguém te disse que, às vezes, ias sentir uma tristeza do tamanho do oceano. Só te falaram no cheirinho a bebé, no vínculo, nas roupinhas e no primeiro sorriso. Sabias, porque não és tonta, que havia muita logística na maternidade. Leste muita coisa, pesquisaste, não é como se não estivesses ciente da parte prática. Mas o turbilhão emocional, esse, era-te desconhecido.

 

Gostava de te dizer muitas coisas mas, a principal, é que não estás sozinha. Há tantas mães que nasceram agora a atravessar o mesmo deserto que tu, tantas mães sozinhas no meio da noite, tanto cansaço em tantas casas, tantas lágrimas escondidas... E sabes uma coisa? Todas serão boas mães. São as incertezas, as angústias e os medos que nos fazem. É no meio da dúvida que nos encontramos. Nunca mais nada vai ser igual ao que era. Vão chegar dias muito melhores, outros terrivelmente difíceis. A tua vida vai ser uma espécie de carrossel que nunca pára. Mas um dia tu vais perceber que gostas realmente de lá andar, que és feliz assim, à roda. Às vezes vais ter saudades do antes, da liberdade que já não volta, e é natural. Todas temos, até aquelas que não o admitem. Só que na balança o maior peso vai estar sempre do lado desse bebé que estás a aprender a conhecer e que agora te assusta tanto. Amanhã ele será um menino, sorrirá, vai sentar-se, comer a sopa, dizer mamã. E um dia, quando deres por ti, o teu coração sincronizou com o dele e, nesse dia, vais encontrar-te e descobrir que estás no lugar certo. Tu hoje ainda não sabes mas nasceste para ser mãe. A mãe dele. A melhor mãe do mundo.

 

 

*Imagem retirada do Google

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