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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

29
Jan18

Coitadinho é o c@r@lh#

IMG_20180122_183340 (2).jpg

 

Não querendo ser repetitiva, lerem na primeira publicação a parte em que disse que o meu filho é surdo? Pronto, então agora que esse ponto ficou claro vamos lá ao que interessa. Essa orelhinha na fotografia é dele e esse é o aparelho que ele usa, todos os dias, faz hoje exactamente uma semana. Foi o mais discreto possível atendendo às limitações inerentes à idade dele. E a história começa agora...

 

Há três ou quatro dias saí com o Pedro de casa e fomos à rua. Até aqui tudo normal, certo? Pois, eis que nos cruzamos com uma senhora já de certa idade e o miúdo resolve que aquela era a altura certa para tirar a porcaria do aparelho e, nesse movimento, chamou a atenção da dita cuja. Foi toda uma tragédia. "Ai meu rico menino, uma criancinha tão pequenina, que tristeza este castigo de Deus, o menino é surdo, que desgraça". Respirei fundo, tentei (juro que tentei) acalmar-me, seguir em frente, não responder. Mas depois olho bem para a mulherzinha e vejo que usa óculos, ou seja, também ela tem uma deficiência sensorial que necessitou de compensação mas, ainda assim, a desgraça é o meu menino. Aquele olhar de piedade começou a fazer o meu estômago revirar, aquela expressão de drama, a postura de tristeza. E olhem... Teve que ser: "a surdez do meu filho, felizmente, tem solução; já a sua falta de formação não tem salvação possível". Peguei o puto ao colo e pus-me a milhas, sem sequer lhe dar tempo para me responder ou acusar de ser mal-educada.

 

Serve esta conversa toda para quê? Para avisar a população em geral que qualquer pai com um filho diferente, seja porque é surdo, porque tem paralisia cerebral, porque é autista ou porque tem seis dedos em cada mão, se está absolutamente a cagar para a vossa opinião e, na maioria dos casos, tem imensa vontade de vos mandar enrolar a pena num canudo e enfiá-la pelo sagrado orifício que nunca vê a luz do dia.

 

O meu filho é surdo e compensa esse défice com um extraordinário poder de observação. Já repararam na riqueza do tacto de um cego? Já pararam um minuto para tentar perceber a complexidade e inteligência existentes no pensamento de um disléxico? Já oservaram uma criança autista quando realmente consegue interagir? Já pensaram no quão alto pode ser o QI de uma criança com paralesia cerebral? Nós, pais, sabemos tudo isso sobre os nossos filhos. Sabemos que são mágicos, brilhantes, únicos e maravilhoso. E estamo-nos nas tintas para as vossas vistas curtas.

 

Coitadinhos? Só se for das pessoas que, de tão pequeninas, não conseguem ver para além de uma limitação ou deficiência. Tirem esse olhar da cara quando olham para os nosso meninos antes que um de nós acabe por se passar e vos arranque, literalmente, um olho. Não queremos a vossa piedade e muito menos a vossa tristeza. Ou acham que sentem mais que os próprios pais? Acham que para nós foi fácil aceitar o diagnóstico? Têm alguma ideia da ginástica que fazemos, todos os dias, em termos emocionais e financeiros, para dar o mundo aos nossos filhos? Bem me parecia.

 

Tudo o que os pais de "filhos diferentes" não precisam é de olhares de lado e comentários à boca pequena. Tudo o que os nossos filhos não precisam é de serem coitadinhos. Eles são enormes. Gigantes. Extraordinários desde o dia em que nasceram. Quem vos dera.

 

 

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