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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

27
Fev18

Cuidadinho aí!

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Às vezes é preciso falar a sério e hoje calha mesmo a ser uma dessas vezes. Depois de ontem ter sabido de mais uma história macabra (e já me relataram três nas últimas duas semanas) achei que era altura de trazer ao blogue o tema das intolerâncias/alergias alimentares. Em primeiro lugar, e para deixar as coisas claras, importa esclarecer que estas intolerânicas são geralmente resultado de um diagnóstico médico e isso quer dizer que existe uma patologia subjacente e, ao mesmo tempo, um risco muito real associado ao incumprimento. Ninguém está aqui a falar de mães alucinadas que, por algum motivo baseado em nada, decidiram condiconar a alimentação dos filhos. Falamos de diagnósticos reais que são um motivo de stress e de sofrimento para a criança e para a família.

 

Não sou dietista nem nutricionista e, felizmente, até ver, o meu filho não tem nenhuma intolerância alimentar mas falo do assunto com toda a propriedade do mundo porque sou celíaca e sei, desgraçadamente sei, o que é viver condicionada ao máximo em termos alimentares. Alguém que não tenha que passar por isto faz ideia do que significa não ter nenhuma oferta disponivel no bar da escola, alguém imagina o que é nunca poder comer descansado no refeitório, alguém imagina o que é ver todas as outras crianças a comer o bolo de aniversário do colega e ter que recusar, ficar ali de lado, só a ver? Esta é a realidade diária de todas as crianças com intolerâncias/alergias alimentares. É a realidade de todas as crianças celíacas, todas as alérgicas à proteína do ovo, todas as alérgicas à proteína do leite de vaca. É a realidade de milhares de crianças neste país.

 

E o que se vê, infelizmente, é que apesar do empenho de muitos, outros tantos continuam a diminuir o assunto e achar que isto são tudo "coisas da cabeça dos pais". E só isso pode justificar a funcionária do refeitório da escola que ontem deicidiu dar a uma menina celíaca esparguete com glúten, ou a da avó que insiste em dar uma língua de gato à neta "porque só uma não lhe vai fazer mal nenhum", só isso explica que o bife grelhado do menino alérgico à proteína do leite de vaca tenha sido passado com manteiga no fim "para dar um gostinho melhor", só isso explica que pais continuem a convidar meninos com intolerâncias/alergias para as festas e não tenham o cuidado de ter disponível, pelo menos, uma bolachinha que se adapte às suas necessidades de saúde.

 

Não sei quantas mais formações precisam ser feitas para que as cozinheiras percebam que a colher que mexe a massa com glúten não pode mexer a massa sem glúten, não sei quantas mais vezes será preciso reforçar que não podem preparar as sandes dos meninos celíacos com as mãos sujas do pão "normal", não sei quantas mais vezes será preciso ligar 112 por causas de choques anafiláticos que poderiam ter sido evitados com sensibilidade e cuidado. Quase todas as semanas me chegam (seja através de grupos do Facebook ou de relatos directos) histórias surreais que eu queria muito acreditar que já não aconteciam. Gostava de acreditar que, ao contrário do que acontecia há quinze anos, hoje as crianças com alergias e intolerâncias estão mais protegidas, menos solitárias e possuem muito mais escolha. Mas parece que não, parece que as coisas têm mudado demasiado devagar, parece que as mães ainda continuam a lutar contra a maré e a ser apelidadas de paranóicas quando se tentam fazer ouvir.

 

Não sei quando é que se vai legislar a sério sobre este assunto em Portugal. Apesar de algumas associações darem o seu melhor todos os dias a verdade é que, neste aspecto, o nosso país continua na cauda da Europa - e nem é preciso procurar muito, basta olhar para Espanha, aqui ao lado, e tentar perceber as diferenças que, garanto, são gigantes. As escolas continuam desinformadas e desleixadas, os restaurantes nao querem saber e até nos hospitais, onde devíamos poder estar sossegados, as coisas são surreais (experimentem ser intolerantes ao glúten e à lactose, por exemplo, e depois digam-me o que conseguiram comer num qualquer hospital deste país). Enfim. A esperança é a última a morrer e, da minha parte vou fazendo os possíveis todos os dias para mostrar que as intolerâncias/alergias alimentares não são "uma brincadeira de crianças" mas sim condições de saúde que condicionam muito a qualidade de vida e que realmente, e infelizmente, podem matar.

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