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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

15
Jul18

Da perda gestacional

perda gestacional.jpg

 

Quando uma mulher aborta há sempre uma mãe que perde o filho sonhado. Se, no início, aqueles dois risquinhos têm o poder de fazer o mundo tremer também é verdade que, nesse mesmo instante, a ideia do filho começa a construir-se. E não importa se a mulher está grávida de seis, onze ou dezoito semanas quando descobre a gravidez. Porque logo ali, mesmo que com medo ou surpresa, há qualquer coisa que começa a mudar, que começa a crescer devagarinho. A semente é plantada e a mulher, que agora já é um bocadinho mãe, começa a sonhar com a flor.

 

Quando esse sonho é arrancado, o que menos importa é o número de dias que durou. Porque o sonho esteve lá, foi-lhe dado. Quando uma mãe perde um filho não pensa que perdeu um conjunto de células que estava a começar a diferenciar-se como algumas pessoas insistem em afirmar com a expressão "isso ainda não era nada". Para a mulher o "isso" era o começo do filho e, por essa razão, era demasiado para ser perdido. Não importa em que estadio de desenvolvimento esteja o sonho. Aquele sonho seria um dia um filho amado.

 

E nenhum filho é menos amado por ser diferente e, portanto, quando alguém diz que "a natureza sabe o que faz" a mulher só encolhe os ombros. A natureza não lhe traz consolo. A natureza também mata milhares de pessoas em terramotos, tsunamis e outras catástrofes naturais. A natureza que lhe permitiu engravidar também lhe roubou o filho sonhado e, por isso, a mulher que não pôde ser mãe, não acredita nem um bocadinho que ela saiba o que faça.

 

Muitas vezes depois de uma perda nem se respeita o luto e o tempo para o sofrimento e há quem comece logo a dizer "depois fazes outro, pronto". Não percebem que o outro, o novo, não substitui o primeiro porque já vai ser outro sonho, um sonho diferente, um sonho sonhado mais a medo. Não percebem que aquele que se perdeu, aquele que a mãe perdeu, já era único para ela e, mesmo sem ninguém dar por isso, já lhe tinha roubado uma parte do coração que não volta.

 

As pessoas falam, precisam de falar. A intenção é boa na maioria das vezes. Querem animar a mulher, dar-lhe esperança. Mas ela não precisa de frases feitas. Ela precisa de chorar, precisa de tempo para guardar o filho sonhado num cantinho para sempre. E talvez precise de um abraço e de um "estou aqui". Só isso, sem mais palavras. Só isso chega. O sonho sonhado, esse, nunca chegará.

 

 

*Dedicado à Inês

 

 

** Imagem retirada do Google

*** Texto originalmente publicado na página de Facebook "a mãe imperfeita" mas que decidi, também, deixar aqui.

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