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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

08
Fev18

Divorciada me confesso

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Tinha uma ideia clara sobre o que queria publicar hoje aqui no blogue. Era um texto engraçado, leve e um bocadinho satírico sobre as mil dietas parvas que estão agora "na berra". Quando acordei, e enquanto bebia o meu iogurte habitual, dei uma vista de olhos nos jornais online e perdi toda e qualquer vontade de escrever sobre qualquer coisa que não fosse este despropósito. Eu, divorciada, a viver em união de facto há cinco anos com o pai dos meus filhos, fui durante cerca de dez anos catequista e animadora de grupos de jovens. Fiz orgulhosamente parte do Movimento Juvenil Salesiano (ou faço porque uma vez MJS, sempre MJS), fiz convívio fraterno, dei o melhor de mim anos a fio na minha paróquia. Um dia, talvez numa decisão pouco madura, decidi seguir os preceitos e casar antes sequer de viver com a pessoa em questão. As coisas não correram bem. As personalidades eram fortes, as coisas não funcionaram e deixei de ser feliz. De repente vi-me confrontada com a decisão mais difícil de todas. Manter-me presa a algo que me fazia infeliz ou optar pelo divórcio? Ganhou a segunda opção. E desde esse dia que, mantendo a minha fé, me tornei uma proscrita na minha Igreja.

 

Não posso comungar, não me posso confessar, não posso baptizar o meu Pedro. Na eucaristia sento-me sempre na fila de trás, quase como se não pudesse estar ali, na casa de Deus, na Igreja que se quer aberta a todos. Se para algumas pessoas a importância de tudo isto é zero, para mim, é enorme. Quando decidi ser feliz, quando criei uma família estável, um lar, fiquei privada de uma parte muito importante da minha vida. É como se me tivessem mandado guardar a fé num saco e dar uma volta porque, ao escolher a felicidade, me tornei indigna de ser filha do meu Deus. 

 

Em 2015 tive esperança, quando o Papa Francisco demonstrou a vontade de abrir a Igreja às novas formas de família, quando incitou à misericórdia com quem se divorciou ou vive uma união fora do casamento. Mas depois saem estas notícias. Depois o Cardel-patriarca de Lisboa entende que, sim senhor, até podem fazer o tremendo esforço de aceitar esta gente pecadora de novo mas nem pensar em que tenham relações sexuais. Podem viver um com o outro mas é como irmãos. E eu pergunto, mas isto é o quê? Quem é este senhor para nos impedir de construir uma família? Qual a autoridade deste senhor para nos impedir de experimentar o amor em todas as suas formas?

 

Não sou tola, conheço as regras da Igreja em que acredito. Sei qual é a doutrina que se prega mas... Será pedir assim tanto que a Igreja se modernize um bocadinho, que deixe de atirar a primeira pedra, quem deixe de ser castigadora, que aceite que os homens também erram e lhes possa conceder uma segunda oportunidade? Quanta maldade existe entre os casados, aqueles que nunca se divorciaram, mas que traem, que mal-tratam, que roubam, que violam? Quantos casados batem com a mão no peito, todos os dias dentro da Igreja, e têm o coração escuro e a alma podre? Quantos dos "bem-casados" são, na verdade, uma escória miserável? E nós, divorciados com novas famílias, seremos todos assim tão maus? Não haverá ninguém bom entre nós? Não faremos nós voluntariado, não seremos fiéis, não seremos dadores de medula, não seremos bons pais, não amaremos o próximo tanto ou mais do que a nós mesmos? Ai as aparências, as malditas aparências que esta Igreja tanto louva ao mesmo tempo que ignora o coração de cada um...

 

Não consigo aceitar este castigo. Um castigo que me atinge a mim e atinge os meus filhos. Nunca os poderei baptizar enquanto crianças, sempre que os ensinar a rezar terei um aperto no peito... E um dia mais tarde, quando forem para a catequese e fizerem a sua primeira-comunhão, terei que lhes explicar porque é que a mãe não comunga. E nessa altura, D. Manuel Clemente, nessa altura digo-lhes o quê?

 

(Talvez diga que a mamã não comunga porque um dia escolheu ser feliz, escolheu ficar com o papá e trazê-los ao mundo, escolheu a nossa família e, escolhendo esse amor, tentaram obrigá-la a desistir do seu amor a Deus.) 

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