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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

07
Mar18

Do dia da mulher

 

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Cada vez que vejo uma publicidade a um jantar comemorativo do dia da mulher sinto os pelinhos dos braços arrepiarem em protesto. Não me sai da cabeça um jantar a que assisti, há uns anos no Porto, onde um grupo de mulheres, completamente desvairadas, conseguiu envergonhar um género inteiro. Juro que até já tinha pena do desgraçado do empregado que tremia que nem varas verdes de cada vez que tinha que se aproximar daquela mesa. Eram piadas parvas seguidas de risinhos histéricos, eram mãos no rabo do empregado, era uma excitação de tal maneira desenfreada que eu só tinha mesmo era vontade de me enfiar debaixo da mesa e sucumbir à vergonha alheia. Sabem aquela imagem da mulher galinha? Pronto, era isso. Aquilo era assim uma espécie de capoeira a atirar para o piorzinho. E se os jantares do dia da mulher já me provocavam prurido, depois deste dia então...

 

Enfim, nem vou perder aqui muito tempo a debater se comemorar um dia internacional da mulher faz ou não sentido nos dias que correm porque, infelizmente, as realidades entre países são díspares e se há locais em que o significado do dia foi perdido para questões triviais, outros existem em que a mulher continua a ser tratada como um ser inferior (basta pensarmos em questões como, por exemplo, a mutilação genital feminina). O problema não é por isso a existência do dia mas sim a forma como é comemorado.

 

É óbvio que não espero que no dia da mulher nos tornemos todas umas "Capazes", até porque não me identifico minimamente com aquele tipo de feminismo porque o entendo como caprichoso e agarrado a meia-dúzia de conceitos pouco relevantes. Esta história de criminalizar o piropo, por exemplo, repugna-me profundamente. É isso e o assédio que, de repente, todas as mulheres sofreram em Hollywood. Vamos lá ver, uma coisa são os casos reais de assédio, outra coisa são meia-dúzia de piropos idiotas e dois beijos mal dados. Mas a sociedade, de repente, enfiou tudo no mesmo saco et voilá, Time's up. Enfim, sabem o que acho destes movimentos? Que são reais machadadas na luta que tantas mulheres travaram pela igualdade de direitos sociais, económicos e políticos. Aposto que as verdadeiras feministas andam às voltas na tumba tal não é o desgosto de perceberam ao que a luta delas foi reduzida.

 

Pronto, serve isto tudo para dizer que amanhã, se forem a um desses jantares comemorativos, entre a sobremesa e o "apita o comboio" ficava bem perderem dois ou três minutos a pensar realmente no que significa o dia da mulher e o que é que cada uma de nós pode fazer para melhorar o mundo de todas as que se vêem mutiladas, forçadas e privadas dos seus direitos mais básicos. É só isso que conta, especialmente a 8 de Março. E devia ser este o mote de todos os jantares marcados para amanhã. O resto? O resto são coisas que podemos fazer todos os dias porque, felizmente, vivemos num país que nos permite ser livres.

 

Ah, e se me permitem o conselho, guardem as mãos nos bolsos e deixem os empregados de mesa em paz. Ninguém merece ter que lidar com a fuga das galinhas. 

 

 

2 comentários

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    Carmen 08.03.2018

    E tanto que havia para falar no dia de hoje... Podiamos falar das 80 mulheres sujeitas a mutilação genital em Portugal em 2016, podíamos falar nas 18 mulheres assassinadas em contexto de violência doméstica em 2017 no nosso país, podíamos dizer que a cada sete segundos uma menina com menos de quinze anos é forçada ao casamento, podíamos falar da obrigatoriedade das mulheres saírem à rua completamente cobertas na Arábia Saudita... Havia tanto por onde pegar no dia de hoje. Mas a gente prefere enfiar a cabeça na areia, receber a gerbera que nos oferecem no Metro e seguir caminho a pensar no jantar com as amigas mais logo... Enfim, nem me alongo mais sobre este assunto porque este post fez-me receber muitas mensagens de indignação, algumas delas bastante ofensivas. Eram todas de mulheres.
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