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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

30
Jan18

E agora? Agora é dor.

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Nos cursos de preparação para o parto, nos livros e fóruns sobre maternidade, em blogues mais ou menos da moda, um bocadinho em todo o lado vá, é abordado o assunto "baby-blues". A gente depois de parir, melhor ou pior, já está preparadas para o turbilhão emocional que aí vem, já sabe que existe uma grande probabilidade de cair na melancolia e estamos prontas para, tal como nos últimos meses, sempre que tivemos enjoos, fome ou irritabilidade, culpar as hormonas. As hormonas, malditas, são na verdade as nossas grandes aliadas. Têm costas largas e servem para desculpar (quase) tudo. Pronto, lá estou eu a dispersar...

 

Voltando ao ponto. Para a melancolia, para a confusão,  e para a tristeza a sociedade já nos vai preparando. É difícil que, hoje em dia, uma mulher seja apanhada de surpresa com o facto de não ser tudo um mar de rosas ali nos primeiros tempos. Para o que ninguém nos prepara é para a parte menos romântica e menos hormonal destas coisas todas, e essa tem um nome: dor. Caraças, como eu gostava que me tivessem dito que sempre que me sentasse ia sentir a episiorrafia toda a repuxar e depois, se me levantasse, era a sutura da cesariana que me fazia dobrar pelo meio (não estranhem, o parto por aqui foi uma espécie de "pague um e leve tudo"). Quem me dera que me tivessem dito que a pega da mama, mesmo correcta, dói que se farta ali nos primeiros tempos e a pessoa tem mesmo que cerrar os dentes para não arrancar a criança à força. Quem me dera que me tivessem dito que como consequência da manobra de Kristeller as costelas ficam de tal maneira lixadas que é impossível uma pessoa virar-se na cama ou mesmo respirar fundo (por falar nesta manobra, já acabavam com esta cagada que não é outra coisa que não violência obstétrica, pura e dura). Quem me dera que me tivessem dito que, depois de parir, mesmo com esquema de analgesia, me ia sentir dorida e doente. Fisicamente doente.

 

Durante muito tempo não falei disto, achava que tinha sido caso único. Mas depois comecei a falar com outras mães e quase todas referiam um mal-estar desgraçado ali nos primeiros tempos. Não sei se é uma consequência do cansaço (ninguém ache que as mães descansam alguma coisa na maternidade), se mais uma vez as hormonas são metidas ao barulho mas, a verdade, é que uma pessoa se sente fraca, doente e com dores. Eu juro que pensei seriamente que me tinham deixado qualquer coisa a sangrar cá dentro e eu estava ali, devagarinho, a perder hemoglobina. É óbvio que não deixaram nada e quando fiz análises estava tudo bem mas porra, que mal me sentia eu.

 

É claro que depois passou. E é essa a boa notícia. Tudo passa. Tudo menos o amor àquelas coisinhas minúsculas. Passa o baby-blues e passa o mal-estar físico, passam as dores e o medo de que alguma coisa esteja realmente errada connosco. Mas, por favor, não deixem as mulheres na ignorância. A maternidade vem com dor associada. A maternidade, que traz o maior amor do mundo, traz também um mal-estar difícil de explicar nos primeiros tempos. E não, não é tudo culpa do baby-blues. É que parir dói que se farta.

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