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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

22
Fev18

Era uma vez...

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Comprei uma colecção de livros para o Pedro. Supostamente estaríamos a falar de uma colecção de histórias tradicionais mas, desgraçadamente, em nenhum lado avisavam que estas eram uma espécie de versão politicamente correcta, perfeitamente adaptada às mariquices de hoje em dia. Para terem uma ideia:

 

O Capuchinho Vermelho

1986: A menina vai a casa da avózinha e, ao contrário das indicações da mãe, acaba por atalhar pela floresta. Feita tonta conta ao lobo mau onde vai. O lobo, espertalhão, chega lá primeiro, come a avózinha e deita-se na cama disfarçado. Quando a Capuchinho lá chega o sacana tenta comê-la a ela também. Ela foge e encontra um caçador que captura o lobo, abre-lhe a barriga, tira lá de dentro a avózinha e no lugar dela mete pedras. Depois atira o lobo ao rio para ser comido pelos peixinhos e fim da história.

 

Hoje: A menina distrai-se a apanhar flores e acaba por entrar na floresta onde encontra um lobo que a consegue enganar por ser muito esperto. O lobo antecipa-se ao Capuchinho e efectivamente come a avózinha. Quando a menina chega e é atacada pelo lobo, consegue fugir e encontra o dito caçador. O caçador captura o lobo, faz-lhe uma incisão na barriga e retira a avózinha. Depois, com muito cuidado, volta a coser a barriga do lobo e amarra-o a uma árvore para que possa ser resgatado pelos outros lobos da alcateia.

 

Moral da história: Em 1986 o lobo mau sofria uma consequência penosa por ser, como hei-de dizer, malvado vá. Acabava por morrer afogado. A Capuchinho apanhava um susto de morte por ter desobedecido à mãe. Actualmente como já não há crianças desobedientes, só distraídas, a Capuchinho fica na mesma e o lobo mau, que se calhar só precisava de meia-dúzia de sessões de psicoterapia, tem um castigo assim levezinho. Amanhã pode fazer mais do mesmo e pronto. Os psicólogos precisam de trabalho.

 

 

A Gata Borralheira

1986: A Gata Borralheira vivia com a madrasta má e com duas meias-irmãs que, em cima da ruindade, ainda eram feias como o pecado. A madrasta escravizava a Gata Borralheira. Um dia houve um baile no palácio e a madrasta só levou as filhas feias. A Gata Borralheira ficou a chorar. Felizmente apareceu a fada-madrinha que lhe arranjou um vestido e transporte e ela conseguiu ir ao baile sabendo que o figurino se desfazia à meia-noite. O príncipe, quando a viu, apaixonou-se e dançaram toda a noite mas, às doze badaladas, ela teve mesmo que se pisgar. Graças a Deus perdeu um sapato de cristal e, no dia a seguir, o príncipe fez com que todas as donzelas do reino o experimentassem. Como a fada-madrinha tinha feito o sapato sob medida, só lhe serviu mesmo a ela. Casaram e viveram felizes para sempre. A madrasta e as irmãs cadelas viveram infelizes e amarguradas.

 

Hoje: A Gata Borralheira vivia com a madrasta e com duas irmãs com feitios um bocadinho particulares (já não são feias sequer). Todas ajudavam, ainda que a maioria dos trabalhos pesados ficasse para a Gata Borralheira. No dia do baile a madrasta não permitiu que a Gata Borralheira fosse porque a cozinha não estava bem limpa. Como a fada-madrinha tinha que entrar na história lá foi então transformar a abóbora em coche e arranjar um vestido de baile e uns sapatinhos de cristal. As regras do regresso a casa mantiveram-se e a parte de perder o sapatinho também. Para poupar letras, é tudo igual até à parte em que a Gata Borralheira convidou a madrasta e as irmãs para o casamento e depois foram todas viver com ela no palácio real, a escravatura doméstica toda perdoada e pronto. Corações, unicórnios e borboletas.

 

Moral da história: Em 1986 as irmãs e a madrasta eram castigadas por terem ostracizado e escravizado a Gata Borralheira toda a vida. Aprendia-se que as pessoas que mal-tratavam as outras acabavam por ser infelizes. Hoje em dia, tudo é perdoado e não faz assim tão mal ser-se uma cobra porque, no final, acaba sempre tudo bem. As atitudes, por terríveis que sejam, são geralmente isentas de consequências.

 

 

Os três porquinhos

1986: Era uma vez três porquinhos que eram irmãos. O mais novo era mega preguiçoso e fez uma casa de palha, o do meio era só meio-preguiçoso e fez uma de madeira e o mais velho, porco mas trabalhador, construiu uma casa de tijolos assim mesmo em condições. Um dia veio o lobo mau que derrubou as duas primeiras casas só com sopros. Felizmente os porquinhos preguiçosos conseguiram refugiar-se em casa do irmão trabalhador e, essa casa, o lobo não deitou abaixo com sopradelas. Como era obstinado o lobo tentou entrar pela chaminé mas, o porquinho mais velho, esperto que nem um alho, conseguiu prever a jogada e meteu lá um caldeirão de água a ferver. O lobo morreu queimado para não ser parvo e não andar a comer porquinhos.

 

Agora: Era uma vez três porquinhos que eram irmãos e muito amigos. O mais novo era mesmo brincalhão e construiu uma casa de palha para não perder tempo de brincadeira. O irmão do meio, bom dançarino, tinha muito que bailar e, por isso, fez a casa em madeira. Só o mais velho, que parece que tinha uma vida mais aborrecida, é que teve tempo para construir uma casa de tijolos. As casas de palha e de madeira são na mesma derrubadas com sopradelas do lobo e a de tijolos fica inteira mas quando chegamos à parte da chaminé começam as surpresas. Não é que o lobo não tenha descido por lá, que desceu, mas caiu de rabo na panela da sopa. Ficou tão aflito com o seu rabo queimado que fugiu para a floresta e nunca mais apareceu. Os porquinhos fizeram uma festa e cantaram e dançaram toda a noite.

 

Moral da história: Em 1986 existia uma recompensa para quem se dedicava a trabalhar, em detrimento do ócio, e fazia as coisas de forma consciente e metódica, sem pressas e trapalhadas. O lobo, porque não tinha nada que querer comer quem não devia, morria escaldado. Agora dá a sensação que o porquinho mais velho é aquele cromo sem vida social que ninguém convida para festa nenhuma e, portanto, pode bem perder tempo a fazer casas de tijolo. No fim safam-se todos, até o lobo (com meia-dúzia de pelos do rabo queimados e pronto).

 

 

 

Enfim, não vos aborreço mais. Mas ficam a saber que as Fábulas de La Fontaine também levaram cá uma volta... Porra, querem histórias politicamente correctas escrevam novas. Não deturpem o que já existe. Aposto que os escritores das versões originais andam todos às voltas na tumba. 

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