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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

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Jun18

Grupos de mães no Facebook #7

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Sei que na semana passada disse que hoje me ia dedicar às siglas utilizadas nos grupos de mães mas olhem... Mudança de planos! A capacidade de adaptação é uma característica fundamental nas mães imperfeitas e, portanto, dado que esta semana recebi alguns prints sobre outro tema decidi antes entrar por aí, que é como quem diz, escrever sobre isso. E antes que morram de curiosidade o tema desta semana passa então a ser "o meu filho é melhor que o teu". 

 

Se alguma vez na vida frequentaram grupos de mães sabem que há sempre meia-dúzia de "mal fecundadas" que andam por ali à caça de elogios. Não sei bem se procuram compensar vidinhas miseráveis, se gostam só de picar os miolos das outras; a verdade é que todas (ou quase todas) as publicações que escrevem são no sentido de mostrarem o quão boas são nesta ciência exacta da maternidade e o quão maravilhosas são as capacidades das respectivas crias. Até podem estar notoriamente a mentir e nós a vermos que nos estão a querer fazer passar por parvas mas nem por isso irritam menos, verdade? Ora, vamos a elas.

 

 

O meu filho é melhor que o teu

 

1. Boa noite mamãs. Por aqui vão 20 meses de uma bebé que capta tudo e fala de uma forma tão correcta que até faz confusão. Forma frases completas às vezes com mais de seis ou sete palavras. Usa correctamente os tempos verbais e tem uma memória extraordinária. Para além disto conta até vinte, conhece as cores, o nome dos animais... O que acham? Há por aí mais bebés assim?

Ai credo, nem sei a qual das duas perguntas hei-de responder primeiro. Mas se calhar vou seguir a ordem para não gerar confusão. Honestamente acho que lhe falta qualquer coisa, mas não é à bebé, é mesmo a si. Não sei se é afecto, se respeito, se atenção... Mas é evidente que há por aí um défice qualquer. Se não houvesse não tinha necessidade de vir para um grupo de Facebook vender a sua filha (já agora, quanto pretende receber por habilidade?). A não ser que o grupo seja assim uma espécie daquela coisa que dava no TLC em que as mães americanas metiam as filhas a competir quase desde que nasciam e, mesmo aí, acho que as capacidades cognitivas não entravam que aquilo era basicamente desfilar em fatos ridículos e com maquilhagem de cabaret. Em relação à segunda pergunta é óbvio que a resposta é não, não há mais bebés assim. A sua filha é a única com tamanhas capacidades. Os restantes bebés são todos uns atrasados porque, na verdade, toda a gente sabe que mal está o futuro de uma criança que aos vinte meses não distingue as cores. A maioria dos putos, ao pé da sua filha, é absolutamente poucochinha. Eu até, se fosse a si, nem deixava a menina misturar-se com essa raça de burros, a não ser, é claro, para lhes dar explicações. Ela se calhar não se importava até porque, aposto eu, é uma criança generosa e com um altruísmo como nunca se viu. Acertei?

 

2. Olá amigas, por aqui fazemos hoje 36 meses de maminhas. Confesso que estou a explodir de orgulho. Sinto que todos os dias faço o melhor para a minha menina. Na verdade não sei como há mulheres que se negam a uma coisa tão bonita, sei que é a maior prova de amor que podemos dar aos nossos filhos.

Olá amiga. Em primeiro lugar deixa-me pedir-te que quando a explosão estiver iminente avises quem estiver ao redor porque isto, já se sabe, ninguém quer levar com um monte de bosta em cima. Repara que eu também sou a favor da amamentação, deixa-me lá deixar isto bem claro. O que me começa a encher de prurido é quando te vejo entrar pela crítica encapotada às mães que não adoraram amamentar. Assim do nada consigo lembrar-me de um milhão de motivos para não amar a cena das maminhas: mamilos a sangrar, depressões, dor, exaustão, doença física, bebés que não aumentam de peso (e poupa-me ao discurso merdoso do "se não aumentam é porque as mães não se esforçaram o suficiente" porque, aí então, temos o caldinho entornado). O que é maravilhoso para ti pode ser merdoso para outras, já pensaste? Há mulheres que adoram o sado-masoquismo, por exemplo. Para elas aquilo é bonito, maravilhoso, é amor. Já a mim mete-me medo que sou muito mariquinhas para essas coisas do apanhar forte e feio. E raios me partam se percebo porque é que as tuas mamas são uma prova de amor maior que o meu biberão. No dia em que desisti de amamentar sabia que estava entra duas opções básicas: ou o puto tinha as minhas mamas ou o meu cérebro, as duas coisas tinham-se incompatibilizado de tal forma que não dava mais para coexistirem. Escolhi o cérebro. E foi uma prova de amor do car@lho. 

 

3. Ai meninas, hoje soube de uma coisa que me deixou chocada. Tenho uma prima com uma filha de 13 meses que passa mais de uma hora por dia, depois de vir da creche, em frente à televisão. Não é de certeza por falta de conhecimento da mãe que é professora e tudo. O meu já tem quase três anos e durante a semana a televisão não é ligada. Sempre que tento falar com a minha prima desvaloriza os meus argumentos e tenho a sensação que ainda goza comigo. Acham isto normal?

Ai menina, não acho nada normal, fosse eu a tua prima e não tinhas só a sensação que estava a gozar contigo, tinhas a certeza. Calculo que sejas uma forte adepta da parentalidade positiva, do tempo de qualidade e de brincar imenso com o teu menino. Confesso que também acho piada a isso tudo só que também me agradam conceitos como jantar, tomar banho e casa arrumada... E sabes como consigo isso sem empregada? Com a ajuda da BabyTV. O meu vem da creche, brincamos um bocadinho, depois dou-lhe uma fatia de fiambre de frango (sim, sim, sou dessas horrorosas que dão alimentos processados aos filhos) e ligo-lhe a televisão. Quando ele sossega rezo uma oração rápida de agradecimento pela horinha que ele fica ali mais ou menos entretido e dou corda aos chinelos nas actividades domésticas. Repara, uma coisa é virar um bebé de dois meses para a televisão durante uma hora, outra é uma miúda de treze meses, boa? Fica lá descansada que a miúda não se vai transformar numa atrasada. Confia em mim que eu sei das coisas.

 

4. Venho aqui fazer um desabafo, hoje quando fui buscar a minha Bianca à creche a auxiliar da sala disse-me que nunca tinha visto uma menina tão inteligente. Há lá mãe que não fique de coração cheio com um elogio destes? (Série de emojis de corações que não consigo reproduzir aqui)

Ai, o que eu adoro a expressão "coração cheio", lembra-me sempre dos anos que trabalhei na cardiologia e dos doentes com insuficiência cardíaca, se for então conjugada com "amor maior" até sinto arrepios na espinha. Fico comovida, pronto, sou uma pessoa emocional querem o quê? Outra coisa que me dá vontade de chorar, mas não é bem de comoção, é existirem profissionais com este tipo de comportamento. Repara querida, eu até podia aceitar que ela dissesse que a tua Bianca é super inteligente, o que não aceito, nem que a vaquinha tussa, é o facto de estar a comparar crianças quando está mais que provado que cada uma tem o seu ritmo. Quando ela diz que nunca viu nenhuma tão inteligente como a tua está automaticamente a dizer que todas as outras que viu eram inferiores e isso é de uma falta de profissionalismo que vou ali e venho já. Além disso é descabido, por todos os motivos e mais alguns. Mais descabido que isso só mesmo vir espetar esta publicação num grupo de mães onde, há menos de uma hora, outra mãe veio lamentar-se da confirmação do diagnóstico de autismo do filho. Ganha a falta de tacto. E não é a da auxiliar. É a tua.

 

5. Mamãs acreditam que o meu J. já sabe contar até vinte em inglês? Fez ontem 23 meses.

Escolhe a resposta de entre as duas opções seguintes:

Opção 1 - O meu, como não é tão esperto, só sabe contar até dez, mas ganha uns pontos extra por ser em mandarim. Tem dezoito meses. Acreditas? 

Opção 2 - Não, não acreditamos. Mas se tu ficas feliz assim, deixa-te estar.

 

 

Pronto, e fico-me por aqui. Provavelmente ficaram desiludidas com a minha falta de humor mas este tema da competição de mães adoece-me de tal maneira que fico só furiosa. O humor emigra para muito, muito longe quando vejo estes atentados e só me apetece responder de forma brusca e num registo tipo "já te mancavas". Lamento. Espero estar menos ácida para a semana. 

 

* Imagem retirada do Google