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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

02
Mai18

Já não és mamã. Mas será que ainda podes ser?

Dia da mãe carta 3.jpg

 

Olá mãe,

 

Quando pensava em como deveria começar esta carta tive muita vontade de recuar trinta anos e poder chamar-te mamã. Sei que pode parecer estranho porque, afinal, agora sou uma adulta mas a verdade é que tu nunca me pediste para parar de te chamar assim e eu não sei porque é que parei. No meu coração tu ainda és e vais ser sempre a minha mamã. Nenhuma âncora se compara a ti. Ligo-te se me sinto doente, se tenho problemas no trabalho, se não consigo tirar uma nódoa da camisola do miúdo ou se preciso de ideias para uma sobremesa diferente. É sempre em ti que penso em primeiro lugar quando preciso de colo porque sabes mãe, nenhum colo do mundo se compara ao teu. O teu colo é a minha casa mesmo qua agora viva longe. O teu colo tem o cheiro de dias felizes e de um Verão que nunca acaba.

 

Lembro-me de ser pequenina, de dormir entre ti e o pai e de não ter nenhuma dúvida de que o mundo batia certo. Fui feliz graças a ti. Ainda sinto o gosto do teu bolo pudim, dos carapauzinhos fritos com arroz de tomate e do teu arroz doce (posso comer mil, mas nenhum é igual ao teu). Quando hoje te vejo olhar cheia de amor para os netos, quando te vejo perdida na cozinha entre sopas e sopinhas, bifes para um, batatas para dois, sobremesa para todos, vejo o mesmo amor que via antes, quando eu era uma menina de caracóis que gostava que me fizesses ditados sempre que chegava da escola.

 

O dia da mãe aproxima-se. Farei, como sempre faço, tudo para estar contigo e levo os teus netos. Não sei se já alguma vez te disse mas sei bem que tu o sentes: tu também és mãe dos meus filhos. Quando olho para vocês, juntos, sei que eles também te pertencem, sei que o teu coração voltou a aumentar para os receber, sei que estás aí para eles como sempre estiveste para mim.

 

Às vezes olho para ti e perco-me nas tuas rugas, nos óculos que antes não tinhas e na curvatura que se começa a desenhar nas tuas costas. E nesses momentos tenho medo. Medo que a velhice te leve e que um dia me faltes. Eu não sei o que farei sem ti. Fazes-me toda a falta do mundo. Fazias quando era só uma menina com medo do escuro, ainda fazes mais agora em que o escuro que temo é outro. Ouço por vezes que perder os pais faz parte do ciclo da vida mas essa ideia não me conforma pela sua crueldade. Como é que perder aquilo que somos pode ser natural? Mandasse eu neste mundo e juro que te fazia eterna. A ti e a todas as mães.

 

Sabes, tenho medo de não te dizer vezes suficientes que te amo. Tenho medo que nesta vida corrida, entre trabalho, filhos e tarefas de casa, acabe por me perder muitas vezes e tu não percebas que sinto a tua falta apesar de te trazer sempre comigo. É por isso que quero aproveitar esta carta para te dizer que te amo sim, mais do que à vida, e fica a saber que passem os anos que passarem e mesmo quando eu já for velhinha, no meu coração vou sempre chamar-te mamã.

 

 

Esta é a penúltima das cartas que decidi escrever como forma de celebrar o dia da Mãe. A última carta, escrita pelo pai imperfeito, será publicada no Domingo. As duas primeiras, escritas por um bebé in utero e por uma criança pequena, podem ser encontradas aqui, respectivamente:

https://amaeimperfeita.blogs.sapo.pt/?skip=4 

https://amaeimperfeita.blogs.sapo.pt/?skip=2 

 

 

* Imagem retirada do Google

 

 

 

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