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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

02
Fev18

Na minha casa ou na tua?

pequeno-almoço.jpg

Na casa dos outros:

Os primeiros raios de sol adentram o quarto, elas acordam antes do despertador depois de um revigorante sono de oito horas. As crianças ainda dormem, cada uma no seu quarto. Elas colocam os pés fora da cama e sentem de imediato o conforto do tapete suave que lhes acaricia os pés impecavelmente arranjados. Seguem para o banho, com atenção para não molhar o cabelo (esse é o trabalho da cabeleireira, evidentemente). Depois de vestirem a roupa elegante deixada pronta na véspera é altura de se sentarem ao espelho e começarem os rituais de maquilhagem: creme hidratante, primer, base, iluminador, máscara de pestanas, pó bronzeador e um leve toque de gloss. Calçam os stiletto et voilá. É altura de ir acordar os meninos. 

Esses meninos, que ainda dormiam a sono solto, acordam ao primeiro beijinho da mãe. Estão felizes e bem-dispostos, saltam da cama com energia e vestem as roupinhas a fazer pendant que a mãe tinha escolhido no dia anterior. Lavam a cara e penteiam as cabelos enquanto vão trautendo canções infantis. Não estão ranhosos nem com tosse. E assim a família, praticamente pronta, reúne-se à mesa-do-pequeno almoço, cheia de opções saudáveis com imensas sementes que fazem maravilhas ao metabolismo e sumo de laranja natural. A mãe já tinha a massa das panquecas (de aveia e sem açúcar) preparada e as crianças comem regaladas. Depois, sem uma única nódoa como testemunha, todos lavam os dentes e seguem felizes em direcção aos respectivos empregos enquanto, no carro, se ouve Debussy em fundo.

 

Na minha casa:

Sinto a mão do Pedro na minha cara, já nem me lembrava que ele aqui estava, o pai deve tê-lo trazido algures pela madrugada. Olho para o relógio. São 6h50'. Porra, outra vez arroz, que é como quem diz outra noite de apenas quatro horas de sono. As minhas olheiras já têm lugar cativo. Levanto-me e acerto com um pé no chão gelado, pego o puto ao colo porque, entretanto, começou aos gritinhos. Abro a janela. Está a chover. Vou à procura de uma coisa qualquer para vestir, lembro-me que tenho um vestido prático que era capaz de ser boa ideia. Não o encontro em lado nenhum. Está para passar, porra. Plano B? Leggings e camisolão, com uma probabilidade de 90% de pelo menos um deles ter um buraco algures. Calço uns ténis. Enquanto isso o Pedro anda aqui pelo chão a resmungar, aposto que tem fome. Pego nele e vou à procura de um fato de treino para lhe vestir. Ele está birrento, a espernear, vira-se e foge mil vezes enquanto o visto. A fralda deve pesar uns 5Kg. Sento-o na cadeira da papa. Num dia bom esmago uma banana e trituro duas bolachas Maria que depois rego com sumo de laranja. Hoje não é um dia bom, come dois iogurtes. Bebo um iogurte líquido que me vai servir de sustento até à hora de almoço. Pego no puto que entretanto já tem o cabelo cheio de iogurte e vou com ele à casa-de-banho. Arma uma birra porque quer lavar os dentes sozinho, outra birra porque quer ser ele a fechar a torneira e outra porque me distraí e apaguei a luz. Faço-lhe má cara e digo que quem manda sou eu mas abro a torneira e acendo a luz outra vez. Vejo que ficou uma ramela mas já não há cá vagar para paneleirices. Tiro-a com um dedo. O sacana está cheio de farfalheira. Outra vez. Estamos prontos para sair, é só enfiar-lhe o blusão e o gorro. Pára tudo, está a ficar púrpura, e roxo e de olhos esbugalhados. A fazer cocó. Estou atrasada. Carrego-o para o sofá, ligo a televisão na baby TV porque preciso mesmo que ele fique quieto agora. Sujou o body. Despir e vestir, round 2. "Livra-te de cagar outra vez agora meu menino" penso eu enquanto ele me dirige aquele sorriso inocente de sete dentes. Pego na mochila dele, faço a segunda tentativa de aproximação à porta de casa e, desta vez, com sucesso. Levo-o à creche, a pé, felizmente é perto. Olho para os outros miúdos e vejo-os todos tão bem-vestidos que pergunto o que se passa. A educadora olha para mim e responde "então, hoje é o dia das fotografias". Fod@-se.

 

nota1 - Roubei a fotografia do Google. Dá prisão?

nota 2 - Já deixei de achar piada a esta cena dos tremores de terra. Dá para parar com a brincadeira?

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