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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

16
Fev18

Nem oito nem oitenta

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Imaginem que estão nas finanças a ser atendidos por um homem na casa dos cinquenta anos e, assim do nada, o homem fica pálido, suado e começa a referir uma dor forte no peito que lhe apanha o braço. O que é que vocês fazem? Chamam ajuda ou pensam "isto não é nada, o tempo vai resolver de certeza"? Pois, suponho que qualquer pessoa não lobotomizada e com um QI acima da oligofrénia tenha respondido que chama ajuda. É a resposta óbvia e mais primária de todas: procurar ajuda quando se percebe que alguma coisa não está bem. Expliquem-me lé então porque é que, enquanto pais, tantos insistem em não o fazer.

 

Vou explicar melhor. Se eu sou a primeira que defende que cada criança tem o seu ritmo e não andamos aqui a competir, se acho perfeitamente normal que uma criança não ande aos quinze meses e não fale aos dezasseis, também não consigo entender aqueles pais que escolhem não ver o óbvio. Em Dezembro, quando o Pedro foi operado, conheci o caso de uma menina com três anos que não falava e não andava. Dava gritos e arrastava-se pelo chão. Mas, apesar da luta da mãe, o pai insistia em considerar a criança como perfeitamente normal. "O tempo resolve isto" dizia ele, depois de já ter recusado todas as intervenções propostas pelas creche. Não aceitou fisioterapia, não aceitou terapia da fala, não aceitou levar a menina a uma consulta do desenvolvimento.

 

E nesta negação idiota o tempo vai passando e, acreditem em mim, cada dia que se perde é precioso. Se os nossos filhos são diferentes, se os nossos filhos precisam de ajuda a nossa função, enquanto pais, é mover as montanhas que forem precisas para arranjar essa ajuda. Seja aqui ou na China, independentemente do esforço e mesmo que nos leve a pele. O nosso trabalho é dar-lhes as ferramentas necessárias para que, dentro das limitações, possam ter a melhor vida possível e isso passa, em primeiro lugar, por aceitar a diferença e não tentar, a todo o custo, tapar o sol com a peneira. Até porque a negação paterna é o primeiro passo para que as crianças se sintam diferentes, ostracizadas e inferiorizadas. Se nem em casa a diferença é aceite como é que poderemos depois exigir que o seja na comunidade?

 

Se por um lado não consigo compreender os pais que desesperam porque com um ano as crianças ainda não sabem contar em inglês, ainda menos compreendo os que, lá no outro extremo, insistem em não ver o óbvio e negar até ao ponto da negligência que o seu filho tem necessidades que as outras crianças não têm. Será que não entendem que cada dia a mais de cegueira aumenta o fosso que separa os filhos deles dos filhos dos outros? Eu sei que não é fácil aceitar que o nosso filho não preenche os requisitos que a sociedade determinou para poder rotular de "normal". Lembrem-se que sou mãe de um menino surdo. Mas porra se não lutei desde cedo para ter o diagnóstico na mão e começar a ajudá-lo o mais cedo possível.

 

A palavra normal é talvez a pior palavra do mundo porque deixa de fora todos os que, por um ou outro motivo, não se enquadram naquilo que, um dia, a maioria definiu como padrão. Fora dos limites do normal há gente extraordinária, acreditem. Quantos dos maiores génios da humanidade foram rotulados de diferentes, perturbados, incompreendidos? Quantas pessoas cheias de limitações físicas são donas de mentes absolutamente brilhantes?

 

Pais de meninos diferentes, escolham ver, escolham sempre ver. Há metas que são mais ou menos consensuais, patamares que as crianças devem atingir. E uma coisa é não o fazerem por três ou quatro meses de diferença, outra é por um ano ou dois. Há uma altura certa para intervir que depressa se converte em tempo perdido. Não se escondam, não fiquem presos à vergonha e ao preconceito. Os vossos meninos até podem não ser normais mas isso é porque são muito mais, é porque são extraordinários.

 

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