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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

08
Ago18

O filho depois da diferença

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Perguntavam-me como é que se parte para uma segunda gravidez quando o nosso primeiro filho é uma criança diferente. Na verdade nunca olhei para as coisas dessa forma. Raramente me lembro que o Pedro tem uma diferença que o distingue das outras crianças uma vez que, com o passar do tempo, a surdez dele tornou-se uma coisa perfeitamente natural para mim. Quando olho para ele os meus olhos só vêem perfeição infinita.

 

Ainda assim não é como se nunca tivesse pensado sobre isto, não é como se nunca tivesse sentido medo mas o que realmente importa é que o João nunca veio com a função de colmatar o que quer que fosse. O João veio para ser aceite e nunca para compensar isto ou aquilo. A verdade é que me faz uma confusão imensa aquela coisa do tentar desesperadamente ter outro filho para poder ter uma criança "normal". Aliás, raios partam o conceito de normalidade, estou fartinha de o dizer. O normal para o meu Pedro é não ouvir, porque raio havemos nós de encarar isso como um desvio? É assim que ele é, foi assim que nasceu, não é possível que, para ele, haja alguma coisa mais normal e natural que isto.

 

O que me parece fundamental é que pais com um filho diferente não vivam uma nova gravidez na expectativa de que o filho que aí vem seja tudo aquilo que o outro não é, independentemente do problema do primeiro filho. Se foi um alívio quando o João passou no rastreio auditivo? Foi. Mas se não tivesse passado tinha em mim uma certeza absoluta: o João seria tão estupidamente amado como o irmão é. E foi isso que fez toda a diferença na decisão de avançar com a chegada de outro filho. É o facto de sabermos que os vamos amar e aceitar venham como vierem.

 

É evidente, contudo, que nem tudo são rosas e os pais que têm filhos com necessidades especiais sabem do que falo. A nossa vida é mais cansativa, dividimo-nos entre terapias fora mas também dentro de casa, temos mais consultas, mais visitas a hospitais, gastamos mais dinheiro. Mas também temos um gosto maior a cada pequena conquista, também nos tornamos mais resilientes e aprendemos a esperar. Se um segundo filho com problemas pode complicar-nos mais a vida? É claro que sim. Mas no fundo sabemos que vamos conseguir.

 

Uma coisa em que acredito é que só devemos partir para mais filhos depois de aceitarmos inequivocamente o problema do primeiro, depois de conseguirmos dizer alto e com todas as letras o nome da deficiência ou da doença que o assola. O segundo filho não pode ser a peneira que vai tapar o sol nem a ajuda maior à negação do problema do outro. Os filhos não são prémios, não servem para ser mostrados. Posso soar um bocadinho mística agora mas os filhos são um dom, uma oferta da vida. Quando essa oferta não corresponde à "perfeição" que a sociedade define pode não ser fácil aceitar mas, por muitos filhos que vierem, o problema não vai deixar de existir e, por isso, o meu conselho é que, em primeiro lugar, aceitem a diferença. Quando a aceitarem vão perder o medo, vão entregar à sorte, à genética ou a Deus, conforme as crenças de cada um, e vão perceber que vale a pena arriscar e seguir em frente, sem medos. Venha o que vier.

 

*Imagem retirada do Google

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