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A mãe imperfeita

Uma mãe imperfeita, cansada e desarranjada, que veste o puto na Zippy e na Primark e lhe dá Papa Cerelac ao lanche. Às vezes, quando se porta bem, ganha uma bolacha Maria.

07
Mai18

Os grupos de mães no Facebook #2

 

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E pronto, como o prometido é devido cá está mais uma publicação da série "grupos de mães". Desta vez o tema central são as doenças dos miúdos. Juro que de entre todas as coisas que me fazem confusão esta mania de ir pedir "consultas" a grupos de Facebook é uma das que está, certamente, no meu top 5. Reparem, as pessoas até podem ter boa vontade e quererem muito ajudar, até podem existir médicas e enfermeiras por ali mas nunca será o mesmo que levar os putos a um lugar onde possam ser realmente observados com tudo o que isso implica (exames complementares de diagnóstico, por exemplo). Certamente que toda a gente acharia uma parvoíce se alguém metesse no Facebook, ou noutra rede social qualquer, uma publicação do tipo "comecei há cerca de trinta minutos com uma dor muito forte no peito que me apanha as costas, o braço esquerdo e o pescoço. Além disso estou suado e sinto-me realmente mal. Alguém por aí já passou pelo mesmo? O que fizeram?", certo? Então porque raio fazem isto com as crianças, senhores? Uma coisa é um rabo assado, uma febrícula que começou há duas ou três horas ou uma feridinha num joelho. Coisas diferentes serão febre altíssima, dificuldade respiratória e outros que tais.

 

Enfim, vamos a isto?

 

Quando os miúdos ficam doentes

 

1. Num grupo de Facebook é postado o seguinte comentário: "Olá a todas, estou aqui sem saber o que devo fazer. O baby M hoje caiu no parque e bateu com a cabeça no ferro das escadas do escorrega. Fartou-se de chorar mas depois consegui acalmá-lo só que agora começou a vomitar e parece que está a ficar mole e sem energia nenhuma. O que acham que devo fazer?".

Pronto digam lá que não dá vontade de responder "olhe, deixe-se estar e não faça nada, espere até ver se o seu filho fica completamente inconsciente e depois ligue para o 112, diz que assim o atendimento até é mais rápido que nem tem que passar pela triagem". Mas uma pessoa mete-se no papel daquela mãe e mesmo não percebendo porque é que ainda está no Facebook em vez de já ir a caminho do hospital responde "se calhar o melhor é levar o menino a um hospital que isso parecem ser sinais de traumatismo crânioencefálico; eu no seu lugar não perdia tempo". A mãe do dito menino deixa um comentário a dizer "muito obrigada, vou ligar ao meu marido e vamos fazer isso mesmo" e uma pessoa até respira de alívio mas, menos de trinta segundos depois, chega outro comentário qualquer vindo sabe-se lá de quem e que diz "olhe lá, não acha que está a ser um bocadinho dramática? Parece-me que está a deixar a mamã em pânico sem necessidade nenhuma. O bebé pode simplesmente estar cansado e os vómitos serem um reflexo disso mesmo o que também explica porque é que está molinho, caso não saiba as crianças usam muito o vómito para demonstrar cansaço, tristeza e frustração." E pronto, sempre fiquei a saber mais um bocadinho sobre psicologia infantil. Não respondi e nunca mais soube nada deste puto mas espero, realmente espero, que a mãe o tenha levado a um hospital em vez de dar ouvidos a esta gente avariada do caixote.

 

2. Uma leitora do blogue enviou através da página de Facebook um print de um grupo de mães que rezava assim "Olá a todas as mamãs aqui do grupo. Uma vez que a J. tem andado doente com febre já há quase uma semana hoje acabámos por ir com ela à urgência e depois de fazer análises viemos de lá com uma receita de antibiótico para levantar. Só que agora que chegámos a casa tenho estado a pensar em tudo o que se ouve sobre o excesso de antibióticos e estou com medo de o dar à menina. Vocês no meu lugar faziam o quê? Davam ou não davam?".

Ora cá a ver, em primeiro lugar é uma pena eu não estar neste grupo para poder responder à pessoa mas respondo por aqui que pode ser que ela ainda veja de uma maneira ou de outra. É óbvio que não deve dar o antibiótico. Então não se vê logo que os médicos são uma raça em quem não se pode confiar? Só prescreveu o antibiótico porque de certeza que a farmacêutica lhe anda a encher os bolsos. Isso é tudo uma raça de gente vendida à indústria, minha senhora. É que de certeza que o tipo pediu as análises só pelo prazer de torturar a menina e que depois nem olhou para elas, deu-lhe o antibiótico só para não dizer que não fazia nada e pronto. Ainda teve sorte de não lhe ter dito só que era uma virose, há muitos que são assim, correm tudo a viroses e acabou. Mas esses, pelo menos, não andam cá com prescrições perigosíssimas. Ah, só mais uma coisinha, se por acaso a sua filha não melhorar, é levá-la a um bom terapeuta espiritual que, com a conversa desses, nem as bactérias se aguentam. De nada.

 

3. Também enviado por uma leitora do blogue o print do maravilhoso caso da mãe que estava aborrecidíssima porque estava a dar oscillococcinum à filha para a febre e o pediatra, parvalhão, a querer obrigá-la a dar ben-u-ron. Eu não vos digo que os pediatras são uma raça perigosa? Onde é que já se viu cá essa brincadeira do Ben-u-ron, cheio de químicos, quando há medicamentos homeopáticos tão bons? 

Enfim, eu juro que aceito perfeitamente que se façam medicamentos homeopáticos como prevenção de estados gripais. Pessoalmente nunca tomei e, portanto, não posso saber se são ou não eficazes mas conheço quem tome e dê aos miúdos e esteja satisfeito (seja ou não coincidência, esse também não é o objectivo do post). O que importa aqui é que, correndo o risco de ofender muita gente, as doenças reais, já instaladas, especialmente se graves, se curam com a medicina convencional e não existe nenhum estudo científico credível que prove o contrário. Reparem, o vosso filho tem 41ºC de temperatura axilar, qual é o vosso objectivo imediato? Baixar a temperatura antes que a criança tenha uma convulsão febril, certo? Acreditem em mim quando vos digo que o oscillococcinum, que até pode ser uma maravilha, não tem esse poder antipirético e se não meterem um químico na criança o resultado vai ser uma merdinha (e antes que venham para cá falar de banhos tépidos e arrefecimentos forçados, já fiz uma publicação na página de Facebook do blogue a falar sobre as novas indicações do Plano Assistencial Integrado para a febre de curta duração da criança, da Direcção Geral de Saúde, onde vem escrito com todas as letras que esse tipo de medidas não está indicado).

 

4. Ora mais uma situação relatada por duas leitoras (deve ser de um grupo famoso qualquer, de certezinha). Uma mãe queixava-se que a filha de quase dois anos não comia nada, só mamava, e tinha apenas cerca de 8Kg - o que até nem seria relevante se nas últimas duas consultas não tivesse descido de percentil. Era seguida pela médica de família que tinha pedido uma observação pela pediatria pois achava que a bebé tinha que ser estudada. A mãe estava triste e preocupada. Mas não devia, minhas senhoras, não devia porque, de seguida, um conjunto de mães experientes abeirando-se da situação tratou logo de relativizar isto tudo com o seguinte argumento "se a menina mama tem todos os nutrientes que precisa, não se preocupe". 

Ora nem mais. Uma criança que mama tem todos os nutrientes que precisa. Confere. Mas é até aos seis meses porra. A partir daí a mama é importante sim mas nunca de forma isolada. A própria OMS recomenda aleitamento materno exclusivo, se possível, até aos seis meses e, a partir daí, diversificação alimentar. Repito, diversificação alimentar. Uma criança de dois anos não pode só mamar caramba, será difícil perceber? E havendo então uma quebra no percentil em duas consultas consecutivas... Mas pronto, há quem ache que sim senhora. Se esta mãe se aguentar com leite nas maminhas até a miúda fazer doze anos sempre poupa uns trocos que não são precisas despesas de supermercado. Enfim... Como alguém dizia no outro dia, haja paciência e um paninho (neste caso um lençol) para a embrulhar.

 

E para acabar, porque sou uma querida, deixo-vos um miminho. E dos bons. Ontem referi no Facebook que estava a penar com uma hemorróida (uma consequência agradável do parto, pois claro) e uma querida mais querida mandou-me o print de uma dúvida num grupo, não sei se de mães ou não, que dizia:

 

"Meninas, ando a sofrer horrores com as hemorróidas e o namorido tem-se oferecido para as ajudar a empurrar (homens, se é que me entendem)... Mas o meu desespero é tanto que já pensei se será que resulta mesmo? O que é que vocês acham?"

 

E pronto. Sou incapaz de fazer um comentário decente a isto. Mas lanço-vos o desafio: façam um comentário de nível e ofereço uma bisnaga de scheriproct à autora do melhor de todos. É que namoridos a empurar não sei se ajudam mas o scheriproct garanto que é assim para o melhorzinho. Oh sorte macaca.

 

Enfim, podem continuar a relatar as vossas experiências surreais para a caixa de mensagens da página do Facebook. Agradeço a quem optar por mandar prints que não identifique o grupo onde aconteceu e que arranje forma de cortar/tapar a identificação da pessoa que faz o post e das que o comentam, ok? Para a semana o tema desta rúbrica será "A mulher é bicho ruim". 

 

*Imagem retirada do Google

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