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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

08
Mar18

Parir em casa

 

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Uma coisa tenho a certeza: ninguém decide de ânimo leve o lugar onde vai parir (e antes que comecem as ofensas, parir é o termo científico correcto para o acto de "expelir o bebé do útero", não fiquem já incomodadas). Com esta certeza em mente confesso que, ainda assim, tenho uma extrema dificuldade em entender quem opta pelo parto em casa. Não me julguem já, é evidente que se no meu local de trabalho der entrada uma mulher a precisar de cuidados em consequência de um destes partos, eu estarei disposta a dar o meu melhor sem julgamentos ou críticas mas, no fundo da minha mente, sei que existirá sempre a pergunta "fizeste esta escolha porquê"? 

 

Na gravidez do Pedro, nunca me tendo passado pela cabeça parir em casa, ainda passei algum tempo a decidir se o devia fazer num hospital público ou numa unidade privada. E ainda que as coisas tenham corrido realmente mal não me arrependo de ter optado pelo Serviço Nacional de Saúde. Se é verdade que as condições hoteleiras deixam muito a desejar, se é verdade que os pais não podem ficar connosco durante a noite e os horários de visitas são muito mais restritos, também é verdade que numa complicação realmente grave com a mãe ou com o bebé a resposta é, na maioria dos casos, mais célere e sem olhar a custos.

 

Enfim, não me querendo desviar do tema principal desta publicação, posso até entender e aceitar que algumas mulheres entendam que os partos actualmente são demasiados instrumentalizados, com demasiadas interferências dos profissionais de saúde e que, em muitos casos, sintam que a humanização deixa muito a desejar. Também sei, no entanto, que na maioria dos Blocos de Partos/Serviços de Obstetrícia deste país tem sido feito um esforço considerável no sentido de melhorar cada um destes pontos. Se é suficiente? Ainda não. Mas acredito que com o esforço de todos lá chegaremos.

 

Há, contudo, um conjunto de dados objectivos que me fazem tremer sempre que alguém me diz que optou/vai optar pelo parto em casa. Em primeiro lugar é sabido que a maior causa de mortalidade materna continua a ser a que se relaciona com a hemorragia e, num parto em casa, como é que se resolve uma situação destas? Existe um Bloco Operatório ali ao lado para onde a mulher possa ser imediatamente transferida? Quanto tempo (e quanto sangue) se perde na transferência da mulher para o hospital? É realmente possível evitar o choque hemorrágico nestes casos? Ainda que assistido por enfermeiras qualificadas para o efeito muito dificilmente, num caso destes, a profissional pode fazer mais do que ligar 112 e referenciar a mulher para um hospital. E é preciso lembrar que nem toda a gente tem propriamente o hospital a dez minutos da porta de casa...

Outra situação que me preocupa é a que se prende directamente com o recém-nascido. É verdade que todas queremos acreditar que vai tudo correr bem mas, infelizmente, essa nem sempre é a verdade. No caso de um bebé que nasça em paragem cardio-respiratória, por exemplo, quantas equipas de parto domiciliário estão realmente aptas a praticar suporte avançado de vida neonatal? Quantas equipas dispõem de equipamentos adequados e, mais ainda, de experiência em entubação de um recém-nascido? Será que sou a única que acredita que o parto em casa eleva ao expoente máximo os riscos para o bebé? Alguns estudos afirmam que 10% dos partos acaba por apresentar complicações. Como é que podemos ter a certeza que cabemos (junto com os nossos filhos) nos outros 90%?

 

E nem o argumento do "antigamente era assim" pode ser válido. Sabemos que a mortalidade neonatal tem vindo a diminuir de forma substancial desde que os partos são realizados em contexto hospitalar. Se em 1979 ainda morriam cerca de 30 bebés por cada 1000 nascidos em Portugal, em 2015 este número caiu para cerca de duas mortes em cada mil nascimentos. Evoluímos ao ponto de, em 2017, nos encontrarmos em 17.º lugar no ranking dos países com menor percentagem de óbitos no período neonatal. Mas parece que não gostamos de estar bem e quando somos bons numa coisa decidimos regredir. E, por isso, vamos lá então voltar a parir em casa.

 

Enfim, sei que tenho uma amiga que vai ficar com os cabelos no ar quando ler isto, que me vai dizer que há excelentes equipas de partos domiciliários, que as coisas são programadas e que os profissionais são competentes, que as mulheres praticamente alugam casas a vinte metros do hospital só para poder parir em segurança... Mas esta conversa eu não compro, lamento. Aliás, não consigo sequer conceber que um profissional de saúde defenda este tipo de parto e, portanto, muito menos entendo que faça parte deles. Por isso, a todas as mulheres que pensam nesta opção como viável deixo o meu apelo: pensem bem, perguntem, informem-se, consultem dados e estatísticas e pensem se é um risco que vale realmente a pena correr.

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