Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

26
Abr18

Querida mamã

IMG_20180119_174216 (2).jpg

 

Olá querida mamã,

 

Já levamos algum tempo juntos nesta viagem mágica. Sei que as coisas não têm sido fáceis... Olho para ti e vejo o teu cansaço em cada linha do rosto. Sei que tens necessidade de dormir, sei que sentes saudades do papá apesar de estarem juntos todos os dias, sei que o trabalho te desgasta e sentes sempre que não consegues chegar a todo o lado. Este Inverno foi longo e difícil, adoeci muitas vezes, fiquei mais mimado e comecei a querer dormir contigo e com o papá todas as noites. Houve fases terríveis entre antibióticos, febres e aerossóis mas a Primavera começa a mostrar-se e sei que, com este solinho, tudo vai ficar melhor. Está quase a chegar a altura em que podemos ir ao parque, fazer piqueniques e brincar juntos até mais tarde. Na verdade eu sei que, às vezes, quando brincas comigo às cozinhas ou aos Legos, a tua cabeça está a resolver problemas do trabalho ou a pensar no jantar e na pilha de roupa para passar a ferro, mas sabes querida mamã, eu gosto tanto dos momentos que passamos juntos a brincar que prefiro esquecer que tens outras preocupações para além de mim. Quando brincamos juntos e tu sorris o meu coração pequenino dispara de alegria e é por isso que te ofereço os meus sorrisos de poucos dentes com tanta frequência.

 

Às vezes também me porto mal. Faço birras na rua, atiro-me para o chão e grito muito. Sei que, nesses momentos, tens que fazer um grande esforço para não te descontrolares e, às vezes, até tens vontade de chorar comigo mas tens que perceber que eu ainda não aprendi muito bem a lidar com a frustração. Acontece muitas vezes que eu quero uma coisa, seja a chave do carro seja mexer no interruptor da luz, e vocês só me dizem que não. E sim, eu já percebo que é errado abrir as gavetas todas, comer as velas da decoração ou tentar mexer nos botões da máquina de lavar louça mas é mais forte do que eu. O mundo tem tanta coisa para explorar, há tantos segredos nas gavetas, tantas luzinhas nos electrodomésticos que eu até me esqueço que são brincadeiras interditas. Desculpas-me por isso mamã?

 

Eu também te desculpo algumas coisas, sabias? Desculpo quando te esqueces que sou só uma criança e gritas sem razão, desculpo quando não queres brincar comigo porque tiveste uma chatice no trabalho, desculpo quando não me levas a passear na rua porque estás cansada. E sabes porque é que te desculpo? Porque no meu coração eu sei e sinto todos os dias que fazes sempre o teu melhor e que, não importa as circunstâncias, o teu sorriso mais verdadeiro é sempre meu. Nos dias bons e maus. Cada dia, todos os dias.

 

Querida mamã, eu sinto quando ficas muito quietinha ao meu lado a ver-me dormir. Sinto cada beijinho delicado nas minhas bochechas, sinto cada festinha nos meus cabelos. E sinto o teu orgulho. Ainda me lembro da tua cara no dia em que me viste dar os primeiros passos, no dia em que disse a minha primeira palavra, no dia em que fiz a minha primeira gracinha. Sei, mais uma vez porque o sinto, que aos teus olhos sou a criança mais inteligente e mais bonita do mundo. E sabes uma coisa? Aos meus olhinhos pequeninos tu também és a mãe mais bonita e inteligente do mundo. Mesmo sem maquilhagem, em pijama e cansada não há nenhuma outra mãe que te chegue aos calcanhares. Nem sequer a mãe do Ruca, sabias? 

 

Gosto da tua sopinha e dos teus bifinhos com arroz, gosto quando cantas e danças as músicas do Panda comigo, gosto quando aplaudes as minhas conquistas, gosto quando me deixas provar o que estás a comer e até gosto do teu ar orgulhoso quando me vestes com as roupinhas novas que me compraste com tanto carinho. Se eu sou o centro do teu mundo nunca te esqueças que é ao redor de ti que o meu mundo gravita. Eu vim de ti e tu ficaste comigo. Hoje e sempre, está bem querida mamã?

 

 

(Esta é a segunda carta do conjunto "Dia da Mãe". A primeira, escrita na perspectiva de um bebé ainda na barriguinha materna, pode ser lida aqui https://amaeimperfeita.blogs.sapo.pt/?skip=1).