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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

25
Mai18

Sim, as mães têm medo de morrer!

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Estava grávida de 23 semanas e fui tomar um banho que, de forma egoísta, decidi que seria longo. Ia a coisa mais ou menos a meio quando comecei a pensar na quantidade de água desnecessária que estava a gastar ali e, assim quase do nada, pensei que a partir de agora teria a obrigação de ser mais consciente porque tinha a obrigação de entregar aos meus filhos um mundo melhor do que aquele que encontrei. Mas já se sabe que os pensamentos são como as cerejas e de repente, de uma forma incompreensível, vi-me presa na ideia do "vai haver um dia em que não vou estar mais aqui". E pela primeira vez senti um baque no peito com a ideia e juro que o meu coração pulou uma batida. A ideia da minha própria mortalidade ficou presa a mim e atormentou-me durante semanas.

 

Se antes da gravidez olhava para a minha mortalidade como uma coisa distante e improvável, que em nada condicionava o meu dia-a-dia, depois de ter um filho dentro de mim as coisas mudaram. Agora havia mais alguém, alguém a quem eu devia presença e apoio incondicional. E isso implicava estar viva... A ideia da minha finitude foi-se instalando de forma mais ou menos descontrolada, comecei a pensar na morte dezenas de vezes durante o dia, comecei a viver de mãos dadas com o pânico de alguma coisa me pudesse acontecer. Durante o período de algumas semanas nem consegui desfrutar da gravidez tal não era o medo que tinha entranhado.

 

E não, não me sentia egoísta. Sentia-me, simplesmente, refém de uma força maior que forçosamente me deveria fazer imortal: a maternidade. Já aqui escrevi uma vez que os nossos pais deveriam ser eternos mas quando estava grávida senti que eu própria devia sê-lo também. Quão injusto seria que a vida me levasse para longe dos meus filhos quando eles ainda precisassem de mim? E assim devagarinho o medo da morte que antes me parecia distante foi ganhando espaço, tomando conta. Nessa altura li muito sobre o assunto, meditei, reflecti... Mas nada parecia ajudar. Tornei-me oficialmente uma pessoa com medo de morrer. 

 

Não sei se é a reponsabilidade que a maternidade traz consigo se é mesmo o tamanho do amor que nos faz sentir que o nosso lugar é aqui, vivos, ao lado dos nossos filhos, para sempre. Não sei se um dia, quando percebermos que os nossos filhos estão felizes, realizados, que são adultos com as suas próprias famílias, este medo começará a diminuir. Gosto de acreditar que sim, que um dia teremos a sensação de que o nosso trabalho está feito e percamos o medo da partida. Gosto de acreditar que um dia estaremos plenos e em paz connosco e aceitemos a nossa finitude tranquilos e felizes.

 

Mas por enquanto não pode ser. Por enquanto tenho filhos que precisam de mim e, portanto, preciso de ser imortal. Por enquanto nós, mães e pais, precisamos de estar aqui, de continuar aqui, de permanecer. Com medo. Cheios de medo. Aterrados muitas vezes. Mas ainda assim, se querem saber, há uma coisa que me consola. Sempre que olho para os meus filhos sei que dava a minha vida em troca das deles sem hesitar. Mesmo que a minha presença física um dia se apague sei que, através deles, já me tornei imortal.

 

 

*Imagem retirada do Google

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