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A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

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Jul18

Sobre a violência obstétrica

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Hoje li um artigo muito inflamado sobre violência obstétrica. A autora, que trabalha com grávidas e puérperas, dizia sem contemplações que as mulheres têm que impedir a continuidade deste flagelo, que é urgente que as mulheres digam não e impeçam estas práticas violentas e arcaicas. E não podendo discordar de que urge colocar um ponto final nisto sou obrigada a discordar, mas discordar a sério, na parte em que se empurra para a mulher a maioria da responsabilidade.

 

É sempre muito fácil opinarmos quando estamos por fora, apontar o dedo e dizer "ela devia ter impedido isto", mas quando nos calha a nós acreditem que fica tudo mil vezes mais difícil. No parto do Pedro, quando as coisas realmente complicaram e depois da terceira tentativa de ventosa sem sucesso, um dos médicos presentes decidiu realizar a manobra de Kristeller (basicamente o médico subiu a um banco e aplicou uma força desmedida e brutal na parte superior do meu útero com os cotovelos). E porra para mim se alguma vez tinha sentido uma dor como aquela (mesmo estando sem epidural nem as ventosas nem posteriormente os fórceps me custaram tanto). Juro que foi a única altura em que realmente gemi, e só não gritei porque já não tinha forças. Mas naquele momento, com o coração do bebé a bater muito mais devagar do que seria suposto, no meio da maior agonia da minha vida, a única coisa que eu queria era que o meu filho saísse de dentro de mim nem que para isso tivessem que rebentar-me no caminho. Garanto-vos que naquele momento, no meio daquela dor excruciante, nunca me ocorreu mandar o médico parar. Pela simples razão que querer o Pedro vivo e bem se sobrepôs a tudo.

 

A manobra não resultou. A incompatibilidade feto-pélvica era demasiado grande e não havia como fazer passar um bebé tão grande por um arco púbico como o meu. Fomos para cesariana emergente. A manobra serviu de zero e, olhando agora, era sabido à partida que nunca poderia resultar. Foi em desespero sim e foi desnecessária. Já em casa era-me impossível virar na cama, não conseguia sentar-me sem dor. Acabei por ser forçada a recorrer a um hospital, a fazer uma radiografia e posteriormente percebeu-se que havia costelas fissuradas.

 

Mas no meio disto tudo tenho a certeza que se me apanhar numa situação idêntica volto a suportar tudo, simplesmente porque naquele momento a minha dor é a que menos dói. E é por isso que gostava que se parasse de apelar às mulheres e se começasse a apelar a quem realmente aplica estas práticas: médicos e enfermeiros obstetras. É a eles que nos devemos dirigir, é para eles (ou para alguns deles) que os textos inflamados devem ser escritos. Nunca a mulher violentada pode ser considerada culpada pela violência que sofreu no momento mais animal e desesperante da sua vida.

 

Sobre a manobra de Kristeller a Organização Mundial de Saúde já emitiu pareceres e recomendações, sempre desaconselhando a mesma mas em Portugal, infelizmente, continua a ser uma prática estupidamente comum. Não deveria ser. Mas a culpa não é da mulher. A CULPA NUNCA É DA MULHER. É por isso que não faz sentido que se empurre para ela a responsabilidade de impedir esta prática. Não façam com que a mulher se sinta uma merda por não ter conseguido levantar a voz e dizer "senhor doutor tire lá os cotovelos de cima da minha barriga" quando a única coisa que ela consegue ouvir é o coração do bebé que cada vez bate de forma mais lenta. Não façam com que a mulher se sinta responsável pelos maus tratos que sofreu naquele que se quer como um dos momentos mais felizes de uma vida. Não façam com que a mulher se culpe porque alguém foi violento com ela.

 

Falemos de violência obstétrica. É urgente e muito necessário. Mas deixemo-nos de discursos acusatórios que responsabilizam quem tem menos culpa. Chamemos os bois pelos nomes e apontemos o dedo a quem de direito. Que o tema venha à rua, que as mulheres percam o medo de falar. Mas que nunca se sintam culpadas. Não é esse o caminho. Nunca poderá ser.

 

 

*Imagem retirada do Google

 

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