Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

A mãe imperfeita

Era uma vez uma mãe que estava tão cansada de ouvir histórias cor-de-rosa sobre a maternidade que decidiu criar um blogue e contar as verdades todas. Agora aguentem-na.

27
Mar18

Ter filhos é um mau negócio

depositphotos_67277961-stock-photo-money-stacks-of

Ontem "conversava" com duas amigas no messenger e, de forma perfeitamente casual, as duas conversas foram bater na mesma tecla: o aumento disparatado das despesas assim que o resultado de positivo aparece no teste de gravidez. E na verdade nem estamos a falar de coisas supérfluas, não são as roupinhas maricas, os berços XPTO ou os sapatinhos assim e assado. São mesmo as coisas essenciais. Vejamos, durante a gravidez, quase todas somos seguidas por um obstetra no privado, calculemos então uma média de 7/8 consultas a 80€ cada uma. No meio disto tudo pelo menos a ecografia de rastreio do primeiro trimestre, a morfológica e a ecografia do bem-estar fetal do terceiro trimestre também saem do nosso bolso. Como sou generosa façamos uma média de 100€ por ecografia (hahahaha). Ora bem, só neste número vamos em 860€ e os putos ainda nem nasceram. Adicionemos à fase pré-natal a necessidade de comprar meia-dúzia de roupinhas e um saco de maternidade. Fazendo as contas (muito) por baixo só aqui ficam mais 100€. Entretanto também é necessário investir num ovinho, num carrinho, num berço, numa banheira e, mais que não seja, numa cómoda para colocar as coisas do miúdo. Vou deixar de fora a espreguiçadeira e a cadeira da papa e arredondar isto tudo a uns bons 1500€*. 

 

Continuando a saga, os putos depois nascem e começam a gastar fraldas como se não houvesse amanhã. Os pacotes de fraldas não são baratos, independentemente da marca, e não é como se as despesas ficassem por aqui. Quem não tem leite, seja porque motivo for, tem que comprar o adaptado que é disparatadamente caro. Depois há ainda o gel de banho, o creme de corpo, a pomada para mudar a fralda... É uma lista sem fim. Até que, assim de mansinho, chegam as vacinas extra plano. Outro pesadelo do caraças. Entre vacina contra o rotavírus e bexsero podemos contar com mais 500€. As calculadoras começam a funcionar. As mães voltam ao trabalho.

 

Começa a creche e, em algumas localidades, as mensalidades são valores absolutamente aberrantes. Criancinhas de berçário que levam as fraldas e o leite e ainda deixam de mensalidade 300€ (ainda bem que vivo na aldeia, juro). Enfim, é o que temos e é para isso que temos que trabalhar. Na creche começam a sujar cada vez mais roupa e as compras não param. Quando começam a andar são os primeiros sapatinhos adequados (entretanto com o gatinhar já rebentaram meia dúzia deles mas de uma gama mais pobrezinha). É altura de investir numa cadeira auto porque os putos já não cabem no ovo e os pais que escolheram ter pediatra já vão com uns bons euros em consultas. E diz quem sabe que a tendência é piorar.

 

Isto tudo para dizer que escolher ter outro filho é começar tudo outra vez (ainda que algumas coisas como o carrinho, o berço e assim, possam ser aproveitadas de um irmão para o outro). Para a classe média, da qual faço parte, a opção pelo segundo filho é muitas vezes um acto entre a loucura e a coragem, a prova incondicional que nestas coisas da paternidade a racionalidade conta muito pouco. Porque se fossemos dar ouvidos à matemática garanto-vos que o mundo estava dominado pelos filhos únicos. Ainda bem que, cá por casa, não somos muito dados a contas.

 

* Deixei de fora, deliberadamente, o valor pago para criopreservação das células estaminais. É opcional e, portanto, não entra para estas contas. Nós, cá por casa, não fizemos.